<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900</id><updated>2011-11-05T11:58:29.406-07:00</updated><category term='Rebolation'/><category term='conto'/><category term='escrita e arte'/><category term='Avenida Paulista'/><category term='Feriado'/><category term='meu amigo'/><category term='Língua'/><category term='Big Brother'/><category term='Vendas'/><category term='aforismos'/><category term='silêncio'/><category term='Lucy in the Sky with Diamonds'/><category term='Literatura'/><category term='matemática'/><category term='O apanhador no campo de centeio'/><category term='Indiferença'/><category term='Big Brother II'/><category term='educação'/><category term='Sujeito Enviesado 2'/><category term='Paradoxo do Livro Chato'/><category term='Simplicidade'/><category term='Café'/><category term='Flávio Lanzelotti'/><title type='text'>Artigo Indefinido</title><subtitle type='html'>Crônicas semanais</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>48</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3627669220444194788</id><published>2010-09-24T07:40:00.000-07:00</published><updated>2010-09-24T07:46:21.155-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Sujeito Enviesado 2'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 07</title><content type='html'>CONTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aventuras e Desventuras de um Sujeito Enviesado nas Laboriosas Terras Tupiniquins&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Sujeito Enviesado conseguiu um novo emprego, após uma temporada desastrosa de penúria e desencanto pela vida, e foi trabalhar normalmente, se é que se poderia chamar de normal o seu comportamento enviesado. De fato, foi um choque saber que tinha sido aceito por aquela empresa de renome internacional, de grande porte, de diretores que posavam impassíveis para fotografias glamurosas que saíam em revistas versadas em negócios. Quando esteve frente a frente com a moça do RH, que lhe passou os detalhes burocráticos sobre o novo emprego, o Sujeito Enviesado esteve mesmo a ponto de ingenuamente perguntar: “Por que vocês me contrataram?” Afinal, ele tinha fundamentadas dúvidas se contratariam alguém como ele para alguma coisa séria na vida. Mas o fato é que foi contratado e precisava tomar as providências cabíveis para se enquadrar no molde exato do cargo. Lembrou do dia em que foi preencher o formulário de solicitação de emprego (tinha uma desconfiança incontornável quanto ao emprego da tecnologia de comunicação, por isso não usava internet, nem tinha celular). Os funcionários do Departamento de Recrutamento e Seleção da empresa o orientaram para que usasse a internet para esse fim, mas ele se recusou terminantemente. Brandiu com razoável articulação alguns argumentos vagos sobre discriminação, até que os funcionários resgataram, mal-humorados, um formulário desgastado em alguma gaveta perdida, e pediram para que ele preenchesse. Houve outros pequenos entreveros, já que ele se complicou em itens prosaicos como “religião”. Ao indagar a um funcionário sobre o que a empresa entendia por “religião”, foi aconselhado a deixar esse campo do formulário em branco, porque se tratava de uma pergunta antiga, típica do formulário antigo. Ao se levantar pela terceira vez para tirar outra dúvida, ouviu em alto e bom som que bastava preencher os campos dos quais tinha certeza quanto ao preenchimento. O tom de voz não deixava margem para discussões, de maneira que foi assim que ele procedeu. E acabou empregado, para espanto dele próprio. Assumiu, então, seu posto numa baia impessoal, onde se isolou no meio de um monte de gente, fazendo um serviço que não compreendia bem, já que não tinha idéia de como aquilo se encaixava no todo da corporação. Quinze dias se passaram até que foi chamado para uma reunião com a chefia, na qual brotou o seguinte diálogo:&lt;br /&gt;- Gostaria que o senhor esclarecesse porque está descendo com outros funcionários para o térreo do prédio, quando estes vão fumar, se o senhor não fuma?&lt;br /&gt;- Nada demais – respondeu o Sujeito Enviesado. Percebi que os fumantes descem regularmente até o térreo para fumar, dando vazão a um vício que não conseguem controlar. Não acho que esta empresa privilegie de alguma forma um funcionário em detrimento de outro. Por isso, constatando que meu grande vício é ler, e que isso não deveria ocorrer no meu posto de serviço, desço com os fumantes para poder ler em paz. Claro que fico chateado com essa situação, assim como imagino que os fumantes também ficam, porque os não viciados não podem largar o serviço com tanta freqüência como nós – os viciados – fazemos, mas o vício cobra sua urgência, de maneira que não temos opção.&lt;br /&gt;- Entendo – disse o chefe, mas o seu semblante desmentia sua afirmação.&lt;br /&gt;O chefe teve de se aconselhar com seu próprio chefe, o qual apenas fingiu escutar, sem realmente estar ouvindo aquela bobagem, orgulhoso que era de ter um ouvido seletivo, que automaticamente descartava assuntos desinteressantes. Além disso, o chefe do chefe ficou o tempo todo da reunião checando mensagens, torpedos e notícias no seu iPhone geração 3 (enquanto pensava quando é que trocaria pelo da geração 4, assunto que trataria na seqüência, assim que seu subordinado saísse da sala), de maneira que houve um certo grau de dificuldade nos trâmites da comunicação naquela reunião. Ao fim, o chefe do Sujeito Enviesado, desanimado, perguntou o que deveria fazer com aquele funcionário esquisito, promovê-lo? O chefe do chefe, profundamente absorto consigo mesmo e ignorando a ironia da pergunta, apenas balançou afirmativamente a cabeça, enquanto sua mão já pousava sobre o telefone na mesa para ligar para a secretária, pois urgia tratar da troca do seu aparelho celular, que já estava inapelavelmente ficando obsoleto a olhos vistos, gestual que foi interpretado como ‘concordo e reunião encerrada’. E assim o Sujeito Enviesado acabou sendo promovido com pouco tempo de casa, o que o chateou sobremaneira, porque não era justo. Como ele relutasse um pouco com a situação inusitada, houve outro ruído na comunicação, já que seu chefe entendeu que a questão era salarial, e assim o salário do Sujeito Enviesado foi aumentado além do que foi proposto inicialmente. Assim não sobrou outra atitude a não ser pedir demissão, o que o Sujeito Enviesado fez assim que pôde, o que voltou a colocar sua vida nos eixos. Eixos enviesados, é claro, mas quem é que pode querer a perfeição nesses tempos malucos de hoje? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3627669220444194788?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3627669220444194788/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/09/artigo-indefinido-ano-2-n-07.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3627669220444194788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3627669220444194788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/09/artigo-indefinido-ano-2-n-07.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 07'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-881601427841954222</id><published>2010-08-17T07:05:00.000-07:00</published><updated>2010-08-17T07:13:57.995-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Paradoxo do Livro Chato'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 06</title><content type='html'>Você já ouviu falar do Paradoxo do Livro Chato (PLC, para simplificar)? Em inglês é conhecido como Boring Book Paradox (BBP), e suas origens se perdem nas brumas do tempo porque, dizem as más línguas (ou, pelo menos, as línguas mais ferinas), o PLC/BBP surgiu junto com Gutemberg (gráfico alemão que inventou os tipos móveis, que resultou na forma moderna de impressão de livros e jornais), lá pelos idos do século XV. Ou seja, como diria o filósofo brasileiro Juca Chaves, assim que o homem inventou o cinto de castidade, na seqüência veio o abridor de latas. Tão logo os livros começaram a ser impressos em série, já surgiu o PLC em todo o seu esplendor. Há registros, não confirmados, de que Shakespeare já lamentava a existência do PLC. Vai se saber! Afinal, nem mesmo a existência de Shakespeare é absolutamente confirmada. Mas isso já é outra história. Outras correntes do pensamento literário atribuem a James Joyce o surgimento do PLC, depois da publicação do calhamaço que é o livro mais famoso de sua (dele) autoria, “Ulisses”, com 900 páginas, em que se descreve UM dia na vida do Sr. Leopold Bloom (para ser mais exato, o decorrer de 16 horas do dia 16/06/1904). Aliás, você sabia que se comemora o Bloomsday todo dia 16 de junho – ao redor do mundo e inclusive no Brasil (aqui em pubs de origem irlandesa)? E que na Irlanda, país de nascimento do prolixo escritor, 16/06 é feriado nacional (talvez o único feriado decorrente de um livro laico e de ficção no mundo todo)? Há uma tese, não confirmada, de que Joyce escolheu 16/06 como data símbolo porque foi o dia em que teve o primeiro contato sexual com a sua futura esposa, Nora Barnacle. Claro que há controvérsias a esse respeito, mas que é curioso, isso é. Como diz o dito popular: se a lenda é mais interessante que os fatos, divulgue-se a lenda! E 16/06 (de 1950) foi o dia da inauguração do Estádio Mário Filho, o Maracanã. E também a data do Levante de Soweto (em 1970, na África do Sul, ainda no vigor do tenebroso sistema do apartheid, que segregava brancos e negros), quando morreu o jovem Hector Pieterson. Mas também são outras histórias. O certo é que muita gente tem vergonha de dizer que não conseguiu ler “Ulisses”, porque intimamente tem a mais plena certeza de que ele se insere na ampla categoria dos livros chatos, mas publicamente isso seria equivalente a passar um atestado de ignorância e intelecto fraco. Aconteceu comigo recentemente com o livro “Jogo da Amarelinha” do argentino Júlio Cortazar, livro aclamado mundialmente como um clássico da literatura latino-americana. E quem disse que eu consegui ler o cartapácio? Com a serenidade devida (e um diabinho assoprando no meu ouvido que eu não tenho o lastro cultural suficiente para encarar uma empreitada dessas), guardei o livro na estante, onde ele vai aguardar por dias melhores. Ou não. Mas a questão do PLC é a seguinte: acabei de ler “À sombra do vento”, escrito pelo espanhol Carlos Ruiz Zafón. Li que se trata de uma narrativa “eletrizante”, mas no meu caso isso poderia ser descrito mais como “maçante”. Acho que sobra escrita no livro, mas falta literatura. O estilo é sombrio de cabo a rabo, mas isso mais me irritou, de tanta repetição, do que entusiasmou, porque a mim soou um pouco forçado. As descrições são repetitivas e sem imaginação, utilizando-se de termos pretensamente líricos, mas que no fundo são – mesmo – kitsch. Por isso a leitura se arrastou e fiquei um tempão tentando vencer as mais de trezentas páginas do livro, porque optei por não desistir. Acabada essa leitura, passei para “A solidão dos números primos”, do italiano Paolo Giordano. No último domingo, quando comecei a leitura, já cheguei à página cento e cinqüenta. Ou seja, rapidamente vou acabar de lê-lo. Aí está o PLC: um livro chato, que nos aborrece, tem sua leitura feita de forma lenta, tomando um tempo além do razoável; e um livro muito interessante, que prende nossa atenção e tem o dom de deixar-nos ansiosos por saber o desenrolar da história, é devorado em um tempo curto. Descobri que dedico mais tempo a um livro chato do que a um livro interessante. Isso é ou não é um paradoxo? E me lembrei da leitura que fiz, há muito tempo atrás, de “A fogueira das vaidades”, do Tom Wolfe, que eu atrasava de propósito, tentando ler de forma mais lenta, para poder usufruir mais tempo de uma leitura agradável e prazerosa. E, falando sério: não existe PLC ou BBP. Pelo menos não formalmente, como apresentei aqui. Foi apenas um pequeno floreio ficcional, que acabo de inventar, para ilustrar algo real. Mas não pareceu verdadeiro? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-881601427841954222?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/881601427841954222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/08/artigo-indefinido-ano-2-n-06.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/881601427841954222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/881601427841954222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/08/artigo-indefinido-ano-2-n-06.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 06'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8039384477063628991</id><published>2010-07-06T10:40:00.000-07:00</published><updated>2010-07-06T10:57:27.095-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Café'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 05</title><content type='html'>“Seu Garçom, faça o favor de me trazer depressa: um bom pingado (que não seja requentado), com café 100% arábica, moído na hora, feito no coador (espresso, cafeteira italiana e extração francesa também servem, obrigado, mas hoje eu não quero), com um pingo de leite integral fresco e quente (se não for um incômodo, prefiro vaporizado), nada de açúcar ou adoçante (café bom e leite bom não precisam ser adoçados), e servidos no copo americano (cheio só até a borda inferior). Anotou?” Essa bem humorada paródia da famosa música de Noel Rosa e Vadico (“Conversa de Botequim”), estampou a primeira página do caderno Paladar do Estadão (27 de maio a 02 de junho de 2010), por causa da idéia do lançamento do Movimento de Valorização do Pingado (MVP), o que inclui até mesmo a instituição do Dia Nacional do Pingado, que será todo 25 de Maio. Já existe o Dia Nacional do Café, que é em 24 de Maio. Logo, é natural que o dia seguinte seja o Dia Nacional do Pingado. Elementar, meu caro Watson! E falemos de café: completamente obtuso em questões e lides gastronômicas e afins, passei a me interessar pelo café depois de ganhar uma cafeteira da minha cara-metade no último Natal. Pouco meticuloso, como sempre, me atentei para as recomendações do manual, e aí passei a fazer uma peregrinação pela internet, buscando cursos de conhecimentos básicos. Mas a maioria que encontrei era mais voltada para formação de baristas (profissional que prepara e serve cafés), o que não me servia. Acabei encontrando um curso chamado de Curso de Preparação de Café feito em Casa, ministrado pelo Centro de Preparação de Café, do Sindicato da Indústria de Café de São Paulo (Sindicafé). Apesar de ter a duração de apenas uma tarde, achei o curso bem interessante. A primeira parte foi teoria, quando aprendi sobre os tipos de grãos (robusta e arábica), a origem histórica, as regiões de plantação no Brasil, os principais plantadores no mundo, os graus de defeitos, métodos de secagem e torrefação, e por aí vai. A segunda parte foi prática: nos reunimos em torno de uma pequena bancada, onde a professora preparou e serviu café das mais diversas formas – coador, prensa francesa, italiano, máquinas manuais e automáticas, Nespresso, café turco. Todos não adoçados, à exceção do café turco, ao qual foi acrescentado um pouco de açúcar mascavo (além de um toque perfumado de grãos de cardamomo). Café turco, para aqueles que não conhecem, é aquele famoso por duas características principais: não é coado e, ao final, a xícara é virada para se “ler” o futuro na borra do café. Cada tipo de preparação exige um grau diferente de moagem, desde o café mais fino (para o café turco) até o mais grosso (para a prensa francesa), passando pelo médio (espresso). Um conceito interessante que o curso passou foi o de que não existe a melhor ou pior forma de se preparar um café. Somos nós que precisamos avaliar as diversas formas até encontrar aquela que mais agrade ao nosso paladar. Isso vale também para o pó de café (marcas, origens geográficas, etc.). Algumas dicas:&lt;br /&gt;1. O café coado no coador de pano é tão bom como qualquer outro. Mas exige um cuidado extra: não utilizar produtos químicos para lavar o coador e, para guardar, colocar em um recipiente com água na geladeira (na hora de usar novamente, passar na água quente).&lt;br /&gt;2. Não preparar o café junto com açúcar. O café tem doçura natural. É melhor acrescentar o açúcar (ou adoçante) depois, na hora de servir, de acordo com o gosto de cada um. O melhor mesmo é não adoçar, para poder sentir o real sabor do café.&lt;br /&gt;3. Não colocar café adoçado em garrafa térmica. O açúcar vai formar uma camada na parede interna da garrafa, como um caramelo, prejudicando o sabor.&lt;br /&gt;4. Não deixar mais do que uns 40 minutos o café em garrafa térmica. Depois disso o sabor vai para o espaço sideral.&lt;br /&gt;5. Não deixar a água ferver ao preparar o café. Quando aparecerem fios de bolhas verticais a partir do fundo da caneca, é hora de parar de aquecer a água.&lt;br /&gt;6. Não mexer o pó com colher enquanto a água quente é derramada no coador. É melhor movimentar a caneca, de maneira a fazer com que a água caia sobre toda a superfície do pó no coador.&lt;br /&gt;7. O leite a ser utilizado para preparar a crema deve ser integral (por causa da gordura). Crema é aquela espuma de leite, que pode ser obtida tanto pela vaporização (recurso das máquinas de espresso), quanto em cremeiras manuais.&lt;br /&gt;8. O capuccino tradicional tem um terço de café (espresso), um terço de leite e um terço de crema.&lt;br /&gt;9. O pó de café pode ser tradicional (pelo menos 70% de café arábica), superior (90% de café arábica) ou gourmet (100% de arábica). O café robusta é um café de qualidade inferior, por isso quanto menos, melhor. As boas marcas estampam esses percentuais.&lt;br /&gt;10. Os cafés forte e extra-forte resultam de uma torra feita além da medida, para disfarçar defeitos nos grãos.&lt;br /&gt;11. As melhores embalagens são aquelas embaladas à vácuo e as valvuladas (embalagem aluminizada, com uma pequena válvula na parte superior, onde se pode sentir o cheiro do pó de café).&lt;br /&gt;12. O pó de café deve ser guardado na própria embalagem, ou em recipiente de vidro ou louça. Jamais em plástico, porque contamina o sabor. Na época de calor, o melhor, para manter a qualidade, é guardar em geladeira.&lt;br /&gt;13. Embalagem de pó de café nunca deve ser guardada aberta, porque o pó tem a característica de absorver os cheiros do ambiente.&lt;br /&gt;Só para encerrar: o café Kopi Luwak é, provavelmente, o mais caro – e um dos mais raros - do mundo. Chega a custar US$ 1,200/kg, e a produção anual não passa de 300 kgs. É um café das ilhas de Java e Sumatra, na Indonésia. Um mamífero da família do gambá, a civeta, come a fruta do café, não digere os grãos e aí os excreta (para dizer um termo bonitinho). As enzimas do seu sistema digestivo reduzem a acidez do café e aprimoram o sabor. Aí esses grãos são higienizados (assim esperamos!), dando origem a esse café absolutamente extravagante. Um cafezinho Kopi Luwak simples custa entre R$ 30,00 e R$ 40,00 a xícara (pequena!). Gosto (e bolso) não se discute! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8039384477063628991?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8039384477063628991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/07/artigo-indefinido-ano-2-n-05.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8039384477063628991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8039384477063628991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/07/artigo-indefinido-ano-2-n-05.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 05'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-2706256871033910110</id><published>2010-05-26T13:32:00.000-07:00</published><updated>2010-05-26T13:44:46.548-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='O apanhador no campo de centeio'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 04</title><content type='html'>“Digressão! Digressão!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Holden Caulfield é, provavelmente, um dos personagens mais conhecidos de todos os tempos, dentro do (extremamente) fértil campo da literatura de ficção. Apesar de estar preso em uma história geograficamente fixa e datada (Nova Iorque, meados do século XX – o livro foi publicado inicialmente em 1951), a forma magistral como seu comportamento e seus sentimentos são expostos compõem um painel psicológico cativante, que tem angariado leitores entusiasmados por décadas seguidas. É impressionante como o livro “O apanhador no campo de centeio”, de autoria de J. D. Salinger (que morreu em Janeiro deste ano, aos 91 anos de idade), onde reina o famoso personagem, consegue prender nossa atenção e ao mesmo tempo consegue verter de maneira avassaladora as confusões intermináveis de uma mente adolescente em ebulição. Como Salinger optou por uma vida absolutamente reclusa, avesso a qualquer forma de exposição pública, e como ele escreveu relativamente muito pouco (além de “O apanhador”, o livro de contos “Nove histórias”, duas novelas curtas em “Franny e Zooey”, e o romance “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação”), nunca saberemos efetivamente quanto de si próprio havia nos personagens que criava, ou quanto do que ele acreditava era dito por seus personagens (que, aliás, não foram muitos, já que ele repetia personagens e famílias de um livro para o outro). Um episódio interessante do livro ocorre quando Holden conta sobre um método da aula de Inglês em sua escola, em que o aluno é obrigado a fazer uma redação oral, diante de todo o resto da classe, não podendo perder o fio da meada do que narra, sob o perigo constante de todos os outros alunos começarem a gritar “Digressão! Digressão!”. No Dicionário da Editora Rideel “digressão” é: s.f. 1 Divagação. 2 Desvio de assunto, de rumo; passeio; excursão. 3 Evasiva. E Holden não se conforma com essa regra, porque acha que, se no meio de uma história, o autor acha por bem mudar o fio narrativo, porque outro assunto mais interessante se apresentou, então ele, o autor, que siga por onde quiser, sem que fiquem gritando “Digressão! Digressão!” a cada vez que ele deixa a mente divagar. Eu, particularmente, gosto de “tergiversar” (fazer rodeios, ser evasivo). Quantas vezes preciso parar um bate papo para perguntar, espantado com o rumo da prosa, sobre como aquilo tudo começou (brincadeira recorrente: você quer saber tudo desde o começo? Pois bem, no começo o mundo era uma bola de fogo...). Parece o "efeito borboleta": o início da conversa é sobre, por exemplo, a erupção do vulcão na Islândia, e daí a pouco estamos falando sobre, também por exemplo, a invenção da minissaia pela inglesa Mary Quant. Ou, pior ainda, vice-versa, da minissaia para o vulcão. E, afinal, que mal há nisso? Desde que não prejudique ou inviabilize o convívio social, tanto faz! Aliás, como usei “por exemplo” duas vezes na mesma frase, me lembrei do meu grande amigo Flávio Lanzelotti, que tinha o curioso hábito de enfiar o “por exemplo” no meio de qualquer conversa, mas destituindo a expressão de qualquer vínculo com seu sentido original. “Eu estava parado num congestionamento na Rebouças, por exemplo, e um motoqueiro quase arrancou o espelho retrovisor do meu carro”, ou “Eu nunca fui com a cara desse sujeito aí, por exemplo”. Ele era o Senhor “Por Exemplo”, que desgastou a expressão, de tanto empregá-la a torto e a direita, até que sobrou apenas uma interjeição (ou uma exclamação), pontuando uma frase. E agora estou lembrando que voltei a ler “O apanhador” por causa da leitura recente da (caudalosa) biografia de John Lennon por Philip Norman, e lá consta que o assassino do Beatle, Mark Chapman, estava lendo “O apanhador” por ocasião do assassinato, e ele afirmou para a polícia que a resposta para o seu ato estava no livro. Detalhe: o atirador que tentou matar o presidente norte-americano Ronaldo Reagan, menos de cinco meses depois da morte de Lennon, também afirmou que a resposta para o seu ato estava nesse livro. Livrinho insidioso, pois não? Pois sim é que a mente perturbada acha motivo onde quer. E outra coisa que me lembrei agora: na verdade, fiquei um bom tempo achando que o “apanhador” do título do livro seria equivalente a quem faz a colheita. Afinal, o que é um apanhador num campo de centeio? Isso, claro, antes de ler o livro. Aí se descobre que o “apanhador” tem relação com o baseball (no jogo, o apanhador é quem pega as bolas que escapam ao batsman, usando uma grande luva de couro), porque essa seria a atividade ideal para o Holden Caulfield: num campo de centeio, onde centenas de crianças correm brincando em todas as direções, ele seria o responsável por apanhá-las caso se desgarrassem e fossem cair num precipício. Uma imagem extremamente poética. Na tradução livre, “catcher” pode ser também aquele que pega ou apanha coisas. E também pensei: uma pessoa que apanha regularmente (no sentido de levar uma surra), também é um apanhador? E por aí vai! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-2706256871033910110?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/2706256871033910110/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/05/artigo-indefinido-ano-2-n-04.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2706256871033910110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2706256871033910110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/05/artigo-indefinido-ano-2-n-04.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 04'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8874323889842281012</id><published>2010-04-20T14:08:00.000-07:00</published><updated>2010-04-20T14:17:53.168-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 03</title><content type='html'>CONTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sempre foi um sujeito enviesado, mas nunca, até então, se dera conta de ser – finalmente - alguém com o perfil na moda, pelo menos no que tange à palavra que descreve tão bem seu comportamento. Só teve essa noção depois de ler algumas notícias sobre diversas aplicações de “viés”. Por exemplo: “O Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a taxa Selic em 8,75% ao ano, mas com viés de alta, em função da iminência da alta da inflação”. Ou “O diretor de teatro Antunes Filho, do alto dos seus oitenta anos de vida, continua sendo visceral em seus trabalhos nos palcos, mantendo sempre um viés interpretativo sui generis, calcado tanto na sua vasta experiência quanto no seu espírito inovador e irrequieto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dicionário da Editora Rideel, viés é: s.m. 1. Obliqüidade, direção oblíqua; esguelha. 2. Tira estreita de pano, cortada no sentido diagonal da peça, dobrada e cosida longitudinalmente, e que serve para enfeite de certos trajes femininos. 3. Ao viés ou de viés: obliquamente; em diagonal; de esguelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, no entanto, o sentido se aproxima mais de “tendência”, que é a aplicação usual em estatística (onde também pode significar erro sistemático, o que é sintomático). Isso foi o que ele apurou (e mais um tanto, que aqui não cabe relatar, porque não tem importância), quando percebeu seu enviesamento na vida. Afinal, quem seria mais oblíquo do que ele próprio? E “viés”, decididamente, está na moda! Não havia como se desvencilhar dessa característica tão sua. E ele que sempre se ativera ao significado singelo da “tira estreita de pano, etc.”, ficou maravilhado com essa aplicação da palavra, e por entender que era, afinal, descrito sucintamente, mas por inteiro. Capitu não tinha, afinal, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” (nos dizeres eternos de Bentinho, o Dom Casmurro)? Então ele deduziu que ela era enviesada, como ele sempre fora. E gostou da identificação, porque ele sempre carregou a pecha de dissimulado, o peso de ter um semblante oblíquo, um meio sorriso, um olhar de esguelha, diagonal, que tangencia o objeto em vez de encarar. E ali ele se achou, na palavra curta, mas definitiva, catada na barafunda desse idioma prolixo. Colheu a palavra e colocou-a na lapela do paletó, como se grudasse um raminho da azulada flor de bela-emília, à guisa de um broche vivo, como nos dominicais footings das praças interioranas de antigamente. Atravessou a Avenida Paulista nas duas direções, andando pausadamente, com circunspecção, como cabe a uma pessoa que descobre, enfim, quem é. Desceu a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio até chegar à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde se preocupou em mirar-se nas vitrines das lojas próximas, para ver, discretamente, se seu ornamento continuava pousado incólume na lapela do paletó. Em frente à uma loja de produtos medicinais (muletas, cadeiras higiênicas, sapatos para diabéticos, ataduras, gazes) ficou em dúvida. “Soslaio” também o descreveria? Gostaria muito que sim. Se pudesse, acrescentaria “soslaio” ao próprio sobrenome. Poderia se apresentar afavelmente como “Fulano Soslaio de tal”. E poderia ser chamado pelo sobrenome incomum: “Você viu se o Soslaio já está na empresa?” ou “O Sr. Soslaio aguarda o senhor na sala de reuniões da diretoria”. “Esguelha” não lhe cabia bem, porque não tem um som fleumático, mais parecendo um apelido de delinqüente. “O perigoso Sr. Soslaio, também alcunhado como Esguelha, foi visto rondando a cena do crime na última sexta-feira, dia 13”. Mas gostou muito de “viés”, porque sempre se soube, apesar de nunca ter consciência plena, um ser enviesado, atravessado, oblíquo. Sempre se comportou dessa forma, ao escutar, ao falar, ao andar, ao compreender e ao se fazer entender. Andava sempre em linha reta, mas no seu caminho sempre se chocava com as outras pessoas, porque ele estava em diagonal em relação ao caminho dos outros. Sua vida era cheia de esbarrões, tanto físicos, quanto imateriais. Ao se saber enviesado não achou a solução para suas atribulações, mas se descobriu, e isso era o mais importante de tudo. Afinal, que importam os percalços do caminho quando estamos no rumo certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8874323889842281012?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8874323889842281012/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-03.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8874323889842281012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8874323889842281012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-03.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 03'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8093611765538946982</id><published>2010-04-07T10:40:00.000-07:00</published><updated>2010-04-07T10:41:35.350-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Rebolation'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 02</title><content type='html'>A lâmpada do farol baixo, do lado direito do meu carro, queimou. Uma situação deverasmente prosaica, como diria o personagem Odorico Paraguaçu, o bem-amado, personagem este tão bem elaborado pelas mãos hábeis de Dias Gomes, que permanece até os dias de hoje atualíssimo. Mas isso é outra história. Eu falava da lâmpada queimada. E pensei, cá com meus botões, que uma situação prosaica requer uma decisão trivial. Ou seja, para quê levar em uma oficina de auto-elétrico para um trabalho tão simples? Ainda mais porque no ano passado a lâmpada do farol do lado esquerdo também havia queimado, e eu cometi a leviandade de procurar o Sr. Manga, denodado especialista nas lides elétrico-automotivas do pujante bairro de Piraporinha, em Diadema, para fazer esse reparo tão... hã... prosaico. Observei, naquela oportunidade, os gestos distraídos do mecânico/eletricista enquanto ele soltava uma trava metálica, depois soltava a tampa plástica, depois puxou a lâmpada falecida, e depois após depois, em questão de segundos, substituiu a lâmpada velha pela nova. Dei dez reais pelo serviço (fora o custo da lâmpada) com um vago peso na consciência, e um sentimento incomodante de desperdício. Afinal, um trabalho tão simplório, feito de uma forma tão – digamos – mecânica, sequer merecia um pagamento? Isso me ocorreu ontem, enquanto comprava uma lâmpada nova em uma loja de autopeças em Diadema. O atendente da loja ainda teve tempo de me prevenir quanto ao uso de lâmpadas chinesas. Um infortúnio para os incautos, foi o que ele disse. Não com essas palavras, mas foi o que ele disse. Amém, foi o que eu disse, mas também não com essas palavras. E fui embora com a minha compra, sobranceiro como sói acontecer a seres esclarecidos como eu. Mas choveu o resto da tarde (comprei a lâmpada na hora do almoço), e eu não tive a oportunidade de testar minhas habilidades elétrico-mecânicas na troca das lâmpadas. À noite, no entanto, a hora chegou. Desci do apartamento para a garagem, abri o capô dianteiro e olhei atentamente, com meu melhor olhar técnico/mecânico/elétrico. Estava um pouco escuro, por isso - não contavam com a minha astúcia! – manobrei o carro para ficar ao contrário na vaga, maldizendo a falta da direção hidráulica. Capô aberto, com duas pequenas lâmpadas fluorescentes logo acima, percebi que continuava escuro como antes, não colaborando, em absoluto, o fato de as peças e partes do motor e adjacências serem todas da cor preta. Logo vi a haste metálica, primeiro obstáculo para o acesso à lâmpada. Testei: firme como uma rocha. Subi ao apartamento e voltei com duas chaves de fenda e um pequeno alicate. Só com a ajuda de uma das chaves de fenda, a maiorzinha, retirei facilmente a haste metálica, no mesmo instante em que um diabinho soprou no meu ouvido: você vai conseguir colocar isso de volta? Tem certeza? Mas não me abati. Apenas tomei o cuidado de não perder a peça. Agora bastava puxar a tampa de plástico, o que acabou se revelando uma tarefa um pouco pior do que eu pensava, porque o espaço para movimentação não era dos melhores, principalmente pela proximidade da peça onde fica o filtro de ar do motor. De maneira que a mão mal se movimentava, e eu não enxergava o que estava fazendo. Depois de alguns xingamentos, a peça cedeu e abriu como uma porta, ou seja, como se tivesse uma dobradiça na outra extremidade. Mas não saiu do lugar, apesar de balançada já com um pouco de raiva por várias vezes. Com a tampa aberta, o espaço para alcançar a lâmpada não era dos melhores, e eu não conseguia enxergar direito por causa da escuridão. Logo as minhas mãos estavam sujas e eu me lembrei que não poderia relaxar com a sujeira, porque não tinha trocado de roupa, ainda estando vestido com calça e camisa sociais. Deslocar a lâmpada do seu habitat natural, depois de descobrir duas travinhas metálicas, e torcer e distorcer até machucar as mãos (uma de cada vez, porque ambas não cabiam no espaço exíguo), foi um trabalho longo e penoso, ao fim do qual percebi que ficar debruçado sobre o motor estava proporcionando uma dor pra lá de razoável nas costas. Legal para quem, como eu, tem escoliose, lordose, hérnia de disco e bico de papagaio. Quando consegui finalmente retirar a lâmpada do lugar (mentalmente usando um fabuloso argumento escutado inúmeras vezes da boca do meu pai: essa lâmpada não nasceu aí!), e me reergui para buscar uma flanela no interior do carro, senti como se a minha coluna tivesse sido deslocada num torno, de maneira que andei um pouco claudicante, fulminado pela certeza que não conseguiria dar cabo de uma tarefa tão – bem – trivial. Mas resisti à tentação de desistir e segui em frente. Não sei como consegui soltar a lâmpada queimada (tirar o encaixe elétrico me reportou ao dístico no Inferno de Dante: deixai aqui as esperanças, ó vós que entrais!), nem como, por milagre divino, encaixei a lâmpada nova no lugar. Então, altamente receoso, acendi o farol e – voilá! – fez-se luz nas trevas do segundo subsolo. Muito bem: era só colocar a tampa plástica no lugar e encaixar a haste metálica. Por baixo: vinte minutos para essa façanha. Primeiro a tampa saiu inteira na minha mão: não havia fixação na outra ponta, era apenas encaixada. A coisa toda poderia ter sido mais fácil desde o início. Depois a haste se recusou a voltar para o seu lugar de origem, apesar dos meus mais intrépidos esforços. Quando ouvi o clic da haste se encaixando finalmente, faltou pouco para que eu me ajoelhasse naquele piso sagrado e agradecesse a Deus pela graça alcançada. Olhei a minha obra e relutantemente concluí que talvez a fixação geral não estivesse lá essas coisas. Talvez precisasse pedir ao Sr. Manga, assim que possível, uma revisão dos meus serviços, ao custo de uns míseros dez reais. Isso posto, subi para o apartamento, com dores nas costas, pernas, braços e mãos, mas com o orgulho razoavelmente intacto. Mais tarde, banho tomado, de pijama e chinelinho, vi uma parte do programa “Bem, amigos”, do SporTV, comandado pelo onipotente Galvão Bueno, e assisti a um rebolado tímido e desastroso do ex-jogador (e atual comentarista de futebol) Caio, que, cedendo aos apelos do time do Santos, que estava em peso no programa, dançou o Rebolation. Ao ver aqueles movimentos corporais ridículos senti uma epifania, e uma luz se acendeu no meu cérebro. O negócio do Caio é jogar bola e comentar, não dançar. Assim como meu negócio é escrever e fazer contas. Nada de mecânica ou elétrica de autos. Cada um no seu quadrado. Valha-me Deus, nosso Senhor: isso é que é realmente o reboleichom-chom. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8093611765538946982?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8093611765538946982/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-02.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8093611765538946982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8093611765538946982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-02.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 02'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8818118336784216402</id><published>2010-04-07T10:36:00.000-07:00</published><updated>2010-04-07T10:39:33.350-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='meu amigo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Flávio Lanzelotti'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 01</title><content type='html'>Um grande amigo meu partiu para o infinito. “Partiu fora do combinado”, como diz o Rolando Boldrin no seu programa na TV Cultura. E eu fiquei órfão de uma amizade sincera, correta, honesta e calorosa. Engraçado é que éramos muito amigos, mas paradoxalmente não éramos muito próximos. Nunca fui a casa dele e ele também nunca foi na minha. Almoçamos juntos algumas vezes e nos vimos várias vezes aos sábados pela manhã (na época em que tínhamos participações em estacionamentos na região da Pompéia, aqui em São Paulo), além, é claro, de nos falarmos regularmente toda semana. Em comum tínhamos duas curiosidades: ambos sem filhos, e esposas com o mesmo nome. Flávio Lanzelotti tinha um jeito tão calmo, terno e fraterno que eu dizia que ele viveria 100 anos, tranquilamente. Tipo de certeza que o destino teima em contrariar. Pelo menos perto de mim ele era um sujeito zen, que não se exaltava à toa, não criticava os outros, não falava mal de quem quer que fosse. Certamente devia ter seus problemas (quem não os tem?), mas nunca o vi se queixando ou maldizendo alguma situação adversa. Era sócio de uma agência franqueada dos Correios, e, portanto, estava envolvido atualmente em uma confusão dos diabos, porque havia um ameaça, cada vez mais forte, de perder o direito a essa franquia, por problemas de origem do negócio (acho que não houve inicialmente concorrência pública para a obtenção dessas franquias, o que configura uma situação irregular em se tratando da coisa pública). Ele me relatava os problemas, mas sem qualquer tipo de raiva ou rancor. Eu o chamava de “magnata”, “prefeito de Jandira” (cidade onde ele residia), falava maldosamente do condomínio Forest Hill (onde ficava sua casa), e ele ria seu riso manso, cordato, amigo. Me chamava de “garoto”, apesar de a nossa diferença de idade não ser assim tão significativa (tenho 52 e ele já passava dos 60, mas eu nunca soube da sua idade exata). No dia 15 de março último, enquanto eu comemorava o aniversário de meio século do meu cunhado mais próximo (Toni), Flávio foi jogar bola com os amigos, o que sempre fazia às segundas-feiras. No meio do jogo teve um infarto fulminante e não resistiu. Um sujeito faixa-preta de judô (foi professor por um bom tempo), jogador de futebol (ainda que só uma vez por semana), sempre em boa forma física, que me contava “puxar ferro” em casa, sofrer um colapso desses... Vá entender! Só sei que fiquei muito abalado, pelo vínculo que tínhamos (ainda que um vínculo recente, já que nos aproximamos mais a partir do último ano em que trabalhei na corretora de seguros Marraf, em 2007, apesar de já nos conhecermos por um bom tempo antes disso), pela sintonia em alguns gostos compartilhados e pelo carinho espontâneo de irmão que brotara entre nós.  Ficam na memória:&lt;br /&gt;- As caminhadas que fazíamos nas manhãs ensolaradas, pelo bairro da Pompéia, falando de tudo um pouco, às vezes parando para tomar um cafezinho, em cafeterias, bares e padarias. Ele gostava de ir também em mercearias, mercados, lojas de roupas, só para ver os preços, fazer comparações. Lembro de um dia em que ele comprou uns óculos de leitura num camelô, que pouco tempo depois praticamente se desintegrou. Gostava de conversar com todo mundo que encontrava. Parecia um vereador quando andávamos pelo Campo Belo, nas imediações da agência do Correio, cumprimentando e sendo cumprimentado por todo mundo que encontrava pelo caminho.&lt;br /&gt;- Sua mania de parar, enquanto andávamos, para ressaltar algum ponto da conversa. Às vezes mal dávamos dez passos, e ele parava novamente, de maneira que percorrer um quarteirão podia ser uma coisa beeeeeem demorada.&lt;br /&gt;- Sua predileção pela Fanta laranja, que eu achava estranha, meio fora de moda. Uma vez ele me convidou para uma rodada de pizza e chopp depois do expediente, e no restaurante, enquanto eu pedi um chopp (correspondendo à expectativa do convite), ele pediu a tal Fanta laranja. Todo almoço que compartilhamos era regado por esse refrigerante.&lt;br /&gt;- Seu gosto por carros esportivos. Além de um Mitsubishi Eclipse, tinha um 3000GT VR4 (este adquirido mais recentemente), e seu xodó: um Puma GTB branco do início da década de 1980 (motor de Opala!), que ele estava reformando inteiramente. Há pouco tempo ele me falou da escolha do couro para os bancos e forração das portas (uma cor de bebida: não sei se era whisky ou conhaque). Estávamos combinando de irmos juntos, num sábado pela manhã, para ver o estágio atual da reforma. Na última vez em que quase acertamos isso, ele precisava ir a um casamento, o que gorou nossas pretensões. Agora, o carro não faz mais sentido.&lt;br /&gt;- Seu gosto pelo jogo: jogava religiosamente todo dia no jogo do bicho (se estava longe da “banca”, telefonava para lá e fazia sua fezinha, sempre baseando-se em palpites, sonhos, placas de carros), e também nos jogos da Caixa Econômica (sena, megasena, etc).&lt;br /&gt;- Eu achava engraçada a gorda carteira que ele carregava, quase uma reencarnação daquelas “capangas” de antigamente, repleta de papéis e documentos; e também a sua “agenda de telefones”: um papel maltratado, amarelecido, inúmeras vezes dobrado e desdobrado, com os nomes e números escritos, que ele consultava diligentemente. Agenda eletrônica? Nem pensar!&lt;br /&gt;- O carinho que ele tinha pela mãe, que faleceu no ano passado, prestes a completar 100 anos de vida, e com quem ele viveu até casar, meio tardiamente, lá pelos 45 anos.&lt;br /&gt;É claro que há muito mais coisas, acontecimentos, detalhes e curiosidades, que ficarão para sempre na minha memória, relacionadas com o Flávio. Para mim foi um golpe muito duro perdê-lo. Só o que posso fazer agora é curtir essa dor e lamentar a interrupção abrupta dessa nossa amizade fantástica. Para driblar a tristeza e, ao mesmo tempo, brincar com esses contratempos imutáveis da vida, mudei o toque da campainha do meu celular para a música “Tudo vira bosta”, cantada pela Rita Lee (de autoria do Moacir Franco!). É o velho jeito de zombar da própria dor, fingindo ignorá-la. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8818118336784216402?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8818118336784216402/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-01.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8818118336784216402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8818118336784216402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2010/04/artigo-indefinido-ano-2-n-01.html' title='Artigo Indefinido – Ano 2 – Nº 01'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-183313571373210944</id><published>2009-10-08T19:14:00.000-07:00</published><updated>2009-10-09T07:10:34.024-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Lucy in the Sky with Diamonds'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 51</title><content type='html'>Em 28 de setembro passado morreu em Londres Lucy Vodden, a mulher que serviu de inspiração para a música "&lt;em&gt;Lucy in the sky with diamonds"&lt;/em&gt;, dos Beatles. Por circunstâncias particulares, eu conheci essa música primeiro pela voz do Elton John, e só mais tarde conheci a gravação pelos Beatles, do disco &lt;em&gt;Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band&lt;/em&gt;, de 1967. Esse disco sempre está em qualquer lista que se faça sobre os melhores álbuns de todos os tempos, às vezes no topo da lista. A revista &lt;em&gt;Rolling Stone&lt;/em&gt;, muito respeitada no meio musical, em 2003 colocou Sgt. Pepper’s em primeiro lugar em uma lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos, o que não é pouca porcaria. O álbum (na época era o tal LP - Long Play - hoje um dinossauro de registro, mais tarde apelidado carinhosamente de “bolacha”, apelido que alguns até hoje usam) surpreende pela unidade, pelas composições elaboradas, pelo pop/rock psicodélico, experimental, por uma série de fatores que o transformaram em uma obra única, uma jóia musical de valor inestimável. Havia também a questão das letras impressas, o que foi um movimento precursor. Além disso, a capa do disco foi controvertida e curiosa. Uma das lembranças é a da lenda sobre a morte de Paul McCartney, cuja mensagem estaria na base da ilustração da capa: havia algo como um túmulo, ornado de flores, com uma guitarra/contrabaixo, que era o instrumento do Paul, com apenas três cordas, o que evidenciaria que naquele momento faltaria um dos Beatles. A lenda acabou sendo alimentada pelo fato de os Beatles, a partir de um certo momento da carreira, terem optado por se apresentar menos em público, transformando-se em músicos de estúdio. Em um disco posterior, Abbey Road, a foto da capa mostra os quatro atravessando a rua do famoso estúdio, e apenas Paul está descalço, e aí dá-lhe conjecturas! De Sgt. Pepper’s ainda ficaram de fora as canções “&lt;em&gt;Strawberry Fiels Forever&lt;/em&gt;” e “&lt;em&gt;Penny Lane&lt;/em&gt;”, que já estavam prontas, mas que, por pressão da gravadora EMI, o produtor George Martin lançou antes, no formato que se chamava de compacto (discos menores que continham apenas uma canção gravada de cada lado). Na época não se admitia, no Reino Unido, replicar a mesma música em discos distintos, quando eram recém gravadas, então essas duas fantásticas canções ficaram de fora do LP histórico. E a música que encerra Sgt. Pepper’s é um capítulo à parte, em termos de composição, harmonia, as mudanças de andamento, o uso de instrumentos clássicos, barulhos de relógio, etc. Recentemente (acho que foi no Caderno 2 do Estadão do último domingo) Daniel Piza escreveu sobre essa música, “&lt;em&gt;A day in the life&lt;/em&gt;”, destacando seu caráter inovador. A vantagem de um disco como Sgt. Pepper’s é que ele pode ser considerado como uma obra aberta, na qual sempre descobrimos uma novidade, bastando ter um ouvido curioso, perscrutador, inquieto, para que, a cada audição, a gente descubra novos sons, achados musicais não percebidos antes, e assim por diante. Isso, para um disco lançado em 1967, há 42 anos atrás, é realmente algo para se pensar e refletir. Mas voltando à Lucy Vodden: há controvérsias, &lt;em&gt;obviously&lt;/em&gt;. A BBC, na época, baniu a música, pela condição de provocadora, por supostamente falar da droga LSD (o ácido lisérgico, tão representativo daqueles loucos tempos), porque as iniciais do nome da música teriam essa finalidade: &lt;em&gt;&lt;strong&gt;L&lt;/strong&gt;ucy in the &lt;strong&gt;S&lt;/strong&gt;ky with &lt;strong&gt;D&lt;/strong&gt;iamonds&lt;/em&gt;, o que seria corroborado pela letra psicodélica. A própria Lucy disse que aquela música não tinha nada a ver com ela, por causa da letra delirante, que não condizia com o que ela era. John Lennon afirmava que a idéia da música surgiu ao ver um desenho feito pelo seu filho, Julian, que era colega de escola de Lucy. Ao apresentar o desenho, o filho explicou o que representava: era a Lucy no céu com diamantes. Ao mesmo tempo, temos a informação de Paul McCartney, em uma entrevista em 2004, dizendo que realmente a música era sobre o LSD. Detalhe: apesar de atribuída à dupla (Paul/John), a composição era só de Lennon. A reportagem que vi no site do Terra sobre a morte de Lucy informa que ela estava com apenas 46 anos de idade, e que lutava há alguns anos contra o lúpus, uma doença que envolve reações do sistema imunológico. Apesar de terem perdido o contato logo após Julian ter deixado a escola, ultimamente eles voltaram a se ver, inclusive porque ele tentou ajudá-la a lidar com a doença. Agora ela passou definitivamente a fazer parte da lenda de uma canção eterna. E lenda sempre é uma história que dificilmente se comprova. Nesta, então, em que faltam dois dos principais personagens (Lennon, como o autor da música, e Lucy, como inspiradora), a coisa se complica mais. Mas, como já se dizia por aí há um bom tempo: se a lenda é mais interessante que a verdade, que se divulgue a lenda! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-183313571373210944?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/183313571373210944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/10/artigo-indefinido-ano-1-n-51.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/183313571373210944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/183313571373210944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/10/artigo-indefinido-ano-1-n-51.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 51'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8329897181309902885</id><published>2009-10-01T18:08:00.000-07:00</published><updated>2009-10-01T18:10:31.684-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 50</title><content type='html'>Acabei de ler dois livros que me impressionaram significativamente. O primeiro foi “Indignação”, de autoria do norte-americano Phillip Roth (Editora Cia das Letras), e o outro foi “Fome”, do norueguês Knut Hamsun (Geração Editorial). “Indignação” narra a história de um jovem judeu, nos Estados Unidos do começo da década de 1950, quando o país estava envolvido na Guerra das Coréias (a parte norte do país apoiada por países comunistas como China e Rússia – esta última na época ainda configurada como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS – e a parte sul apoiada pelos Estados Unidos), dando os primeiros passos para os movimentos liberalizantes que começariam a se estabelecer em sua cultura, principalmente a partir do meio daquela década (o surgimento do rock’n’roll, das pílulas anticoncepcionais, os experimentos literários da geração beat, as raízes do movimento hippie, do flower power, a contestação generalizada do establishment, a iconoclastia, a luta pela emancipação dos negros, os princípios do feminismo, e por aí vai). Ou seja, aquele começo de década, que ainda reverberava os últimos sinais da monstruosa Segunda Grande Guerra Mundial (que terminou em 1945), ainda era um campo aberto e virgem, sem que se tivesse a noção exata da magnitude dos movimentos sociais que brotariam dali para frente. E é nesse contexto, ainda predominantemente conservador, que o personagem principal do livro está, em 1951, ingressando na idade adulta. Phillip Roth sem dúvida está entre os grandes escritores norte-americanos da atualidade, junto com John Updike (que morreu neste ano), Paul Auster e alguns outros do mesmo quilate. Ele tem uma destreza impressionante para nos envolver em uma história que, à primeira vista, parece simples e frugal, mas que com a sua visão aguda e certeira acaba por trazer à tona sensações ocultas, provocando sentimentos contraditórios, ora de reconhecimento, quando enxergamos a nós mesmos no viés humano dos erros e defeitos expostos pelos personagens, ora de estranhamento, quando percebemos que ele está lançando um foco de luz sobre comportamentos humanos que preferíamos que continuassem escondidos. Não há como não se sentir afetado pela leitura dos seus romances, ou passar incólume pelas reviravoltas nas histórias, ou pela exposição crua do ser humano. Há pouco tempo li dele “Homem comum”, e as mesmas sensações também brotaram dessa leitura. Não é, nem de longe, leitura de entretenimento, de jogos de palavras, de aventura ou suspense (não há nada de errado com essas outras formas literárias, pelo contrário, cada uma guarda sua própria importância). É como quando olhamos para um quadro que deforma o ser humano, realisticamente ou não, até o ponto em que percebemos que nós mesmos estamos ali retratados de uma forma que não gostamos de nos ver. Incomoda, mas isso é bom, porque induz à reflexão. E o outro livro, que li na seqüência, “Fome”, me chamou a atenção por dois motivos: primeiro porque se trata de uma leitura que fiz no fim da minha adolescência, e que me marcou muito na época – fiquei curioso para saber qual o efeito que o mesmo livro teria sobre mim agora (livros e filmes às vezes perdem todo seu encanto com o tempo, não por eles mesmos, mas porque nós mudamos, e a pessoa que somos hoje vê com olhos muito diferentes aquilo que vimos há muito tempo atrás, e a nossa visão é fundamental para compreensão da obra, porque estamos moldados de acordo com o nosso lastro de cultura, que se altera de forma peculiar ao longo do tempo); e segundo porque a tradução foi feita pelo Carlos Drummond de Andrade, de quem eu desconhecia essa faceta de tradutor. E outra coisa, que eu só fiquei sabendo há bem pouco tempo atrás, é o comportamento esdrúxulo do autor. Knut Hamsun nasceu na pobreza em 1859, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1920, flertou com o nazismo, foi preso ao final da Segunda Guerra Mundial, foi dado como louco e acabou morrendo em 1952, aos 92 anos de idade. Ele foi estivador, lenhador, marinheiro, sapateiro, condutor de bonde, jornalista e cuidador de frangos (!). Quando ele se encontrou com Hitler e Josef Goebbels, já tendo ganhado o Prêmio Nobel, ele deu a Goebbels a medalha do prêmio. Mais polêmico e controvertido, impossível. E à despeito desse comportamento estúpido, sua literatura é de primeira grandeza, ombreando com grandes nomes da literatura mundial de todos os tempos. É uma escrita relatora da condição humana, cheia de sangue e tormento. Como, aliás, só os grandes escritores têm condições de produzir. E eu me senti da mesma maneira hoje como da primeira vez que li esse livro, há mais de trinta anos atrás: satisfeito e inquieto. Literatura de primeira qualidade é isso aí. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8329897181309902885?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8329897181309902885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/10/artigo-indefinido-ano-1-n-50.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8329897181309902885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8329897181309902885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/10/artigo-indefinido-ano-1-n-50.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 50'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4258325364447969755</id><published>2009-09-10T19:06:00.000-07:00</published><updated>2009-09-10T19:14:32.613-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='escrita e arte'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 49</title><content type='html'>Gosto muito de uma das famosas frases do rei do pop-art norte-americano, Andy Warhol (aquele que disse que no futuro todos seriam famosos por quinze minutos e que pintou solenemente uma imagem da lata de sopa Campbell): “Artista é alguém que produz coisas que as pessoas não precisam ter”. É claro que há um pouco de blague nisso, ou talvez apenas uma manipulação inteligente de um jogo de palavras, distorcendo e recriando a realidade que nos cerca. Por outro lado há a música dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”. O que queremos é um pouco difuso, havendo possivelmente uma linha tênue separando os campos do que é efetivamente necessário (meios para uma subsistência digna) daquilo que é complementar (às vezes considerado como supérfluo), onde se encaixa a “arte”. Definição de “arte” é como a definição de “crônica”. Uma crônica, como já se disse há muito tempo atrás, é tudo aquilo que consideramos como crônica. Assim é a arte: depois de Duchamp &amp;amp; Cia, arte é tudo aquilo que chamamos de arte. E, para mim, crônica também é arte, independente do meio pelo qual ela é propagada. E eu tenho minhas dúvidas, como expressou Andy Warhol, sobre a produção artística e a sua importância para todos. Mas não o tempo todo, senão não escreveria estas mal traçadas linhas. Toda essa embromação para dizer que falhei na publicação do blog na semana passada, mas o maior perdedor com essa atitude sou eu mesmo, que assumi o compromisso de postar religiosamente, uma vez por semana, meus despretensiosos comentários acerca de qualquer assunto que me desse na telha. Acho que em parte foi o tal do inferno astral, que assola aqueles que estão prestes a fazer aniversário. Ou foi vagabundice da mais pura lavra. Sabe-se lá. Mas, cá estamos. E eu me reporto ao escritor mineiro Luis Ruffato, aclamado pela crítica, de comportamento exótico, como bem convém a um artista de têmpera (não bebe, não dirige, não tem celular, não fotografa, não toma notas), que disse: “Não acredito em inspiração. Penso que quando escrevo estou me dispondo a ser um depositário de alguma memória coletiva”. Não seremos assim todos nós? Ou seja, pensamos que quando escrevemos estamos alinhavando nossos próprios e particulares pensamentos e idéias, mas será que não estamos apenas transcrevendo, ainda que inconscientemente, a memória coletiva? Quanto de exclusivamente “eu mesmo” há no que escrevo? E quanto há de influência de todos os que me cercam? Não tenho a pretensão de escrever “artisticamente”, mas porque será que o texto de vez em quando flui naturalmente, como um mina d’água perdida nos confins dos campos do interior que se avoluma ao longo do seu curso, e se transforma em rio caudaloso, ora poluído, ora purificado, ora remanso, ora corredeira? Talvez seja o efeito da tal memória coletiva. Clarice Lispector dizia: “Eu queria saber o que pretendem de mim os meus livros”. Uma inversão de valores: não era ela que pretendia alguma coisa ao escrever e publicar seus livros; ela tinha a curiosidade de saber o que os livros pretendiam dela, numa escala sutil de quase insanidade. Afinal, porque escrevemos? Porque essa ânsia pela exposição através da escrita? Que, aliás, com o advento de todas essas novas mídias (blogs, twitter, msn, orkut, facebook, etc.) voltou a entrar na moda de uma forma avassaladora. Todos querem, de alguma maneira, ter um espaço seu para expor seus pensamentos, seus conhecimentos, ou, às vezes, a completa ausência tanto de uma coisa quanto de outra. Repetem-se hábitos e tradições antigas, só que vertidas através de uma tecnologia atualizada (e de alcance infinitamente maior). Clarice disse também (para José Castello): “Nada tenho a ensinar. Também não quero aprender, quero desaprender”. E, para isso, ela se esvaía na escrita, sangrando a alma no ajuntamento especialíssimo das suas próprias palavras. Como se expiasse culpas acumuladas desde seus antepassados na Hungria da época da segunda guerra mundial (diz uma biografia recente que a mãe dela foi estuprada por soldados nazistas, e que ela engravidou da Clarice como forma de “limpar” seu organismo, porque havia uma crença nesse sentido, disseminada entre seu povo; e dessa redenção – e dessa culpa – ela nasceu). Mas tudo isso é elucubração desmesurada. Vamos tocar a vida e escrever, porque a gente não quer só comida. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4258325364447969755?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4258325364447969755/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/09/artigo-indefinido-ano-1-n-49.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4258325364447969755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4258325364447969755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/09/artigo-indefinido-ano-1-n-49.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 49'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3589842487123035483</id><published>2009-08-27T18:42:00.000-07:00</published><updated>2009-08-27T18:46:59.705-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 48</title><content type='html'>- &lt;strong&gt;Eu não sou muito apegado às minhas convicções&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase ficou flutuando preguiçosamente pela cela, depois de ter sido entendida em alto e bom som pelos circunstantes. Protógenes, o autor da frase, levantou-se do chão, saindo da roda que estava formada em torno de um singelo jogo de baralho e foi até a janela gradeada e sem vidros. Havia uma luminosidade que penetrava obliquamente, um facho de luz fria, que delineava um retângulo irregular no chão. Ao chegar à janela Protógenes emitiu um longo e dolorido suspiro, acendeu mansamente um cigarro amassado, deu uma profunda tragada e colocou os dois braços para fora, em direção da noite escura. Manteve os braços esticados, com as palmas das mãos voltadas para baixo, como se indicasse sua desistência – do jogo de baralho, da prisão, das articulações, da vida, enfim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não sou mesmo – repetiu, como quê para ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no cimentado frio, Alcebíades olhou atentamente para as cartas que tinha nas mãos, cartas escurecidas e engorduradas, milhares de vezes manipuladas pelas mãos rústicas e toscas de infinitos presos que por ali já haviam passado. Pousou-as no chão na sua frente, mantendo cuidadosamente as faces com os dados para baixo, como se o jogo pudesse ser retomado a qualquer momento, formando um pequeno leque de azul esmaecido. Levantou-se e foi até a porta, uma chapa de ferro fechando a entrada, pintada de um verde desbotado, com vários pontos de ferrugem, onde havia um buraco retangular na altura mediana, que servia tanto para passar a comida, quanto para observar o movimento do corredor da prisão, apesar da altura inconveniente. Alcebíades tirou do bolso um surrado espelhinho, com o desenho de uma mulher nua no verso, à guisa das antigas pin-ups, e colocou-o um pouco para fora da porta, passando-o pelo buraco e, abaixando-se, observou um pouco o corredor, ora para um lado, ora para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ananias deve ter sucumbido ao Deus Hypnos – murmurou Alcebíades – a essa altura deve estar no terceiro sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da cama de cima do beliche de alvenaria, o nariz afundado em uma edição antiga de Guerra e Paz, Demóstenes remexeu-se, baixou o livro sobre a barriga e olhou por cima dos óculos de leitura em direção a Alcebíades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morfeu. Nos braços de Morfeu. Ananias, o carcereiro, está nos braços de Morfeu – informou, laconicamente, progredindo vagarosamente as informações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcebíades não se deu ao trabalho de olhar de volta para quem tinha falado com ele. Bafejou brevemente no espelhinho e passou com vigor a manga da camisa, buscando limpá-lo. Mirou-se no espelhinho, virando o rosto em vários sentidos, como se procurasse algum defeito. Só então respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Morfeu era o deus dos sonhos. Filho de Hypnos, este sim deus do sono. Quando a gente diz “cair nos braços de Morfeu”, buscando dizer que caiu no sono, estamos cometendo um pequeno erro na mitologia. Hypnos dormia eternamente no fundo de uma caverna, onde tinha canteiros de papoula, de onde se extrai o ópio. A morfina, que foi descoberta por um farmacêutico alemão, que conseguiu isolar o alcalóide ativo do ópio, se chamou originalmente morphium, com pê-agá, aludindo a Morfeu. Mas Morfeu era o deus dos sonhos e seu pai, Hypnos era efetivamente deus do sono. Simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demóstenes afundou o nariz novamente no livro, apoiado sobre a portentosa barriga, e apenas resmungou entre dentes: “&lt;em&gt;sabe-tudo&lt;/em&gt;!”. Enquanto isso, Protógenes continuava ruminando sua indisposição, contrariado e insatisfeito. Só o que conseguiu pensar foi: “Morfeu, Hypnos, mitologia... De que vale a livre sabedoria para quem está encarcerado? Antes um ignorante solto do que um intelectual preso! Ou não!” E continuou mirando a noite pela janela.&lt;br /&gt;Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3589842487123035483?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3589842487123035483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-48.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3589842487123035483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3589842487123035483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-48.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 48'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4693841423203909950</id><published>2009-08-20T18:42:00.000-07:00</published><updated>2010-04-07T13:15:18.465-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Simplicidade'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 47</title><content type='html'>Em uma antiga entrevista, Woody Allen, o renomado cineasta novaiorquino, disse que se não fosse cineasta, gostaria de ter sido ascensorista. Após o espanto do entrevistador, ele esclareceu que preferia ter uma profissão em que não precisasse pensar tanto. Assim teria a cabeça livre para flanar à vontade, pensando sobre o que bem entendesse. Essa situação se repetiu, em outra medida, com o personagem interpretado pelo ator Kevin Spacey no filme “Beleza americana”, do diretor Sam Mendes. Depois de ter se desiludido com um emprego em um escritório, que não lhe dava prazer algum, e onde imperava, em larga escala, uma onda de hipocrisia, ao ser demitido, o personagem faz uma chantagem descarada, baseada em fatos comprometedores cometidos pelo big boss da organização. Recebe uma bolada, a título de cala-boca, e aí arranja um emprego para si como atendente no drive-thru de uma lanchonete de fast food (inclusive uniformizado, com aquelas roupas espalhafatosas típicas desse tipo de estabelecimento), onde finalmente pode trabalhar sem pensar muito. Aliás, se eu não me engano, ao ser entrevistado para o emprego, ele faz questão de se empregar como balconista, para ter o mínimo possível de responsabilidades. Ele queria se livrar daquela rede adulta de responsabilidades, retroagindo para um espírito adolescente, sem grandes decisões, sem perturbações de grande monta, limitando-se a cumprir um trabalho manual e repetitivo. Essas duas lembranças me vieram quando li a coluna “Banda Executiva” de 07/08/09, publicada na editoria de “Carreiras” do jornal Valor Econômico, e assinada pela jornalista Lucy Kellaway, colunista do “Financial Times”. O título daquela coluna era “Encerrar a carreira com um trabalho braçal é uma boa idéia”. E ali ela narrou a história de um conhecido seu que perdeu um emprego de diretor de marketing de uma empresa que vendia refeições orgânicas pela TV. Com 56 anos de idade, lá (na Inglaterra) como cá, não havia grandes perspectivas para a recolocação profissional. Então, devidamente guarnecido por uma poupança graúda que respaldou sua decisão, resolveu tentar o emprego com que sonhara quando era garoto: ser carteiro. Lucy, a colunista, ao escutar a história contada por ele, perguntou, espantada, como era aquilo. E ele respondeu “triunfantemente” (como ela mesma destacou no seu texto): “Sou carteiro e esse é melhor emprego que já tive na vida”. Mas qual a razão para essa felicidade? Simplicidade, antes de mais nada. O salário era um décimo do que ele recebia como diretor, mas ali ele tinha: um trabalho saudável, que fazia com que ele acordasse cedo para pegar no batente, e andasse pelo menos quatro horas por dia; um trabalho cordial, que fazia com que tivesse contato com um grande número de pessoas, a quem passava a conhecer; um trabalho despreocupado, já que ele chegava em casa às treze horas, e não precisava mais pensar no trabalho até o dia seguinte. Assim sua mente, como pretendia Woody Allen se fosse ascensorista, podia vagar sem pressa, despreocupadamente, se atendo com detalhes que passavam despercebidos em sua atividade anterior (na qual ele não tinha como se desligar, porque sua cabeça ficava repleta de problemas que precisavam ser solucionados, enquanto tentava fazer com que as pessoas, suas subordinadas, se ocupassem com coisas que elas não queriam fazer, enquanto ele próprio era obrigado a assumir responsabilidades por coisas que ele não conseguia mudar). Na questão braçal lembro também do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter, que tinha como hobby a construção de móveis de madeira, mas sem o emprego de parafusos ou pregos. Tudo era feito através de encaixes perfeitos e cola, nada mais. Uma ocupação braçal, apesar de detalhista e bem planejada, feita para desanuviar a cabeça, baixando a bola dos problemas do dia a dia, o que ajudava a recompor a plena força da atividade cerebral. Lembro de uma foto dele, de camisa xadrez e jardineira de jeans, participando de um mutirão de construção de casa populares (de madeira), martelo em punho e um grande sorriso escancarado no rosto. Felicidade derivada da simplicidade. Simples. Acho que este é um momento (na história da humanidade) de complicações, mais complicado do que ontem, mas menos complicado do que amanhã, porque – ilusões à parte – tudo ainda vai melhorar para muito pior. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4693841423203909950?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4693841423203909950/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-47.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4693841423203909950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4693841423203909950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-47.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 47'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8531278762954095484</id><published>2009-08-13T18:39:00.000-07:00</published><updated>2009-08-13T18:42:19.925-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 46</title><content type='html'>Muito interessante a matéria feita pelo Jerônimo Teixeira, publicada na Veja em sua edição de 12 de agosto, chamada “Por obra do acaso”, sobre o livro “O andar do bêbado”, escrito pelo físico americano Leonard Mlodinow (tradução de Diego Alfaro, editora Jorge Zahar). A matéria trata da questão das probabilidades, das estatísticas, dos acontecimentos que o acaso proporciona nas nossas vidas. Uma coisa que me chamou a atenção na matéria foi um problema apontado pelos usuários do tocador de música iPod, porque justamente eu havia detectado o mesmo “problema” no tocador de CDs do meu carro: ao optar pela forma “aleatória” de progressão das músicas, às vezes calhava de tocar duas músicas seguidas com o mesmo cantor, ou então três músicas mais semelhantes eram tocadas em sequência (por exemplo: Cássia Eller, Nando Reis e Cazuza). Então, apesar da escolha aleatória, parece que de vez em quando o aparelho desenvolve uma sequência não tão aleatória, mas sim mais racional, como se fosse estabelecido um play-list pré-definido. É claro que não é isso que acontece, objetivamente, porque o aparelho não tem essa capacidade de discernimento e seleção, mas chega a ser curiosa essa situação. No caso do iPod, os usuários chiaram, e a Apple acabou por alterar o sistema operacional do aparelho, de maneira que a função aleatória não seja estritamente aleatória (o sistema passa a impedir a repetição de cantor ou de música). Mas voltando às probabilidades e ao acaso: isso é muito bem aplicado na questão do esporte, notadamente para o futebol. Na matéria é dito, por exemplo, que uma final de copa do mundo está sujeita a vários elementos-surpresa, como erros de juízes, o mal estar de um craque importante, uma chuva inesperada, etc. Dessa maneira, cálculos probabilísticos indicam que, para que seja excluída qualquer forma de acaso, e para que se saiba definitivamente qual é o melhor time, o ideal seria que a disputa se desse em pelo menos 250 partidas. Por essa razão, deduzo eu, é que o campeonato por pontos corridos é mais justo do que aqueles com partidas finais: porque assim o melhor time, ao longo do campeonato, é quem levanta a taça, diminuindo sensivelmente a influência do acaso. Reproduzo uma outra parte da matéria: “&lt;em&gt;Em todos os esportes profissionais, o técnico de um time costuma ser responsabilizado quando amarga várias derrotas sucessivas. É comum que ele seja demitido e substituído por outro. Economistas já fizeram análises rigorosas dos resultados obtidos por equipes que mudaram de técnico e chegaram a uma conclusão que surpreende torcedores e cartolas: a mudança não faz diferença, porque, com perdão do trocadilho, há muitas outras coisas em jogo&lt;/em&gt;”. Essas “&lt;em&gt;outras coisas&lt;/em&gt;” são fatores que tanto podem ocorrer dentro de campo, como podem ser o que se chama de extra-campo, e que podem influenciar no desempenho de um time negativamente, fugindo ao controle dos técnicos. Tudo isso também pode ser aplicado para a eterna discussão do fator “jogo em casa”, ou “mando de jogo”. Afinal, isso influencia ou não? Nesse caso, o mais interessante é avaliar uma larga faixa de dados (por exemplo: os últimos vinte anos de campeonato brasileiro), para se ter uma idéia quanto ao comportamento do resultado da partida. Mas isso não significa que um jogo futuro pode ter um resultado positivo apenas por conta dessa estatística, porque isso seria a aplicação no futuro de um dado do passado, desconsiderando-se todos os fatores do acaso. Talvez, na média estatística, o que vai se encontrar (eu não sei o resultado dessa apuração) seja uma tendência a que o time da casa se saia melhor. Mas sabe como é estatística: um sujeito morre afogado em um rio que em um determinado trecho (onde ele morreu) tem 4 metros de profundidade, mas que, na média, tem 50 centímetros; aí não se pode simplesmente dizer que ele morreu em um rio que tem 50 centímetros de profundidade, porque não podemos usar a média como característica geral. Ou então, ao saber que um brasileiro come dois bifes no almoço, e outro não come nenhum, anunciar que o brasileiro médio come um bife por refeição, porque essa seria a média. Da mesma forma como não podemos dizer que os números não mentem: os números nem mentem, nem falam a verdade. Nós somos aqueles que mentimos ou falamos verdades através dos números. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8531278762954095484?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8531278762954095484/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-46.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8531278762954095484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8531278762954095484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-46.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 46'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-72653733311580727</id><published>2009-08-06T19:29:00.000-07:00</published><updated>2009-08-06T19:36:44.046-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Indiferença'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 45</title><content type='html'>Em um filme do qual, para variar, não lembro o nome, um pai, conversando com seu filho, diz que o ideal é que o único mandamento de Deus deveria ser “não roubar”. Porque isso se aplicaria a qualquer circunstância descrita nos outros mandamentos. “Não matarás”, por exemplo, já estaria representado por “não roubar a vida do outro”, e assim todos os mandamentos seriam reduzidos a essa única forma de expressão. É claro que é um reducionismo, uma simplificação, mas não deixa de ser interessante, porque faz com que pensemos em um assunto batido, sob uma ótica diferenciada. E eu pensei sobre isso recentemente, quando avaliava o que eu considero como sendo o grande mal dos dias que correm: a indiferença. E como esse mal funciona? Vamos a um exemplo: se estou dirigindo um carro, nesse trânsito maravilhoso de São Paulo, e vejo um sujeito dirigindo displicentemente, em velocidade abaixo dos demais, com o carro flutuando entre as faixas, não há dúvida, o motorista deve estar falando ao celular. Com isso ele está passando uma mensagem aos outros motoristas: não estou me importando com vocês. Ele se sente indiferente aos outros motoristas, que são seres destituídos de humanidade, que apenas orbitam à volta da sua armadura protetora de aço, como moscas indesejáveis. Se o trânsito está devagar, quase parando, mas um motorista mais “esperto” resolve se livrar desse incômodo e trafega pelo acostamento, qual o sentimento que rege essa atitude? Indiferença. Indiferença pelas regras de trânsito (que são feitas para serem aplicadas apenas aos outros), e indiferença aos outros, que seguem as regras. É claro que o motorista quer, antes de mais nada, obter uma vantagem para si, em detrimento de todos os que estão à sua volta. Mas quando ele age dessa maneira, está apenas expondo sua indiferença. Ele não quer saber das regras que são impostas a todo mundo, e nem está avaliando conscientemente que busca ter uma vantagem indevida em relação a todos os demais motoristas. E isso é indiferença. Isso também funciona para quem não respeita os semáforos, ou quem avança sobre as faixas de pedestres, ou quem muda de faixa de rolamento sem avisar aos outros, e assim por diante. Todas são situações de descaso que, no fundo, podem ser caracterizadas como indiferença. Mas isso é muito mais abrangente. Se um político tradicional, com décadas da sua vida dedicadas ao serviço público, age como se a estrutura do governo fosse um feudo familiar, empregando filhos, esposas, sogras, netos e netas, e namorados de netas, ele está sendo o quê exatamente (além de imoral)? Está sendo indiferente. Ele está indiferente às boas normas de conduta, à moral, à ética. O fato de arrebanhar cargos e funções públicas para seus protegidos, esquecendo que o dinheiro que banca toda essa gastança não sai do seu próprio bolso, mas sim dos impostos pagos por todo o mundo, demonstra que o político é indiferente ao efeito dos seus atos. Esse comportamento, para ele, é tão arraigado, tão entranhado na sua mente coronelista e anacrônica, que ele chega até mesmo a estranhar o escarcéu que tudo isso provoca na imprensa e nas reações públicas de repúdio. Ao mesmo tempo, na outra ponta desse novelo, há uma imensidão de pessoas que não está nem aí para o que acontece nos domínios do “puder”, desde que seus caraminguás brotem todo santo mês, garantindo o sustentozinho de cada dia. Não há até mesmo aquela famosa frase, dita a respeito de mais de um político (com um ar de enfado e descrença), que “ele rouba, mas faz”? Isso não é indiferença? Votar em sujeitos (ou sujeitas) exóticos, que gritam em seus programas de propaganda eleitoral (mas sem ter nada a dizer), ou que tenham um comportamento esdrúxulo, ou que patentemente só tentam se eleger para se “arrumar”, isso tudo não é indiferença? Indiferença pelo futuro do país, indiferença pelo resultado que seus votos vão trazer. Quando alguém vota com o espírito de “tanto faz”, ele está expressando literalmente sua indiferença. E, indo mais além, a indiferença está contida em inúmeros escaninhos do nosso comportamento diário. Ou então o que significa quando alguém fura deliberadamente uma fila? Ou trata mal seus subordinados na empresa? Ou joga lixo na rua? Ou fuma em locais proibidos? Acho que a lista é interminável, comportando sempre uma novidade. Mas a correção é simples (como é simples qualquer sugestão que fazemos aos outros, sem olharmos para o nosso próprio comportamento): é só deixarmos de ser indiferentes. Não é exatamente fácil, porque requer atitude e força de vontade. Mas qualquer um pode fazer acontecer. Pode fazer a diferença. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-72653733311580727?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/72653733311580727/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-45.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/72653733311580727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/72653733311580727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/08/artigo-indefinido-ano-1-n-45.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 45'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3585602424773015167</id><published>2009-07-30T18:06:00.000-07:00</published><updated>2009-07-30T18:07:47.187-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 44</title><content type='html'>Na edição 443, Ano 37, Agosto/2009, da revista Planeta, há uma matéria chamada “Quando a ciência perde o rumo”, baseada no livro do jornalista norte-americano Michael Brooks: “13 coisas que não têm sentido” (Editora Profile Books). Entre as questões que o livro levanta há o “efeito placebo”, com a seguinte pergunta: é ou não é uma farsa? Já foram feitas inúmeras pesquisas a respeito dos remédios que contém apenas substâncias inofensivas, como açúcar ou farinha, e que portanto não deveriam provocar qualquer reação naqueles que os ingerissem. Esses remédios são os tais placebos: parecem de verdade (tamanho, formato, cor, embalagem), mas não contém as substâncias químicas que poderiam interferir no organismo de qualquer pessoa, provocando curas ou amenizando problemas de saúde. No entanto o placebo acaba por provocar resultados positivos em quem o ingere, ressaltando-se que, nesses casos, a pessoa não sabe que ingeriu um falso medicamento. Já li sobre testes em que pessoas que sofriam de dor de cabeça foram divididas em dois grupos: para um grupo foi ministrado o medicamento real e para o outro o placebo. Os resultados de índices de melhoras foram semelhantes, havendo até circunstâncias em que o placebo superou os resultados obtidos com os comprimidos de remédios verdadeiros. Mesmo quando os dois grupos sabiam de antemão que um deles receberia o placebo, só que sem saber qual grupo seria, os resultados foram surpreendentemente semelhantes com os casos em que ninguém sabia, em ambos os grupos, que alguém receberia medicamentos falsos. Claro que isso não funciona quanto à prevenção de gravidez, por exemplo. Aliás, ficou famoso aqui no Brasil o caso das mulheres que compraram em farmácias o medicamento anticoncepcional que sempre tomaram (marca comum a todas as envolvidas), e que acabaram engravidando, porque, por engano de uma indústria farmacêutica (não me lembro qual foi), os medicamentos continham apenas farinha. Não era o caso, claro, de placebo, porque não haveria razão para se fazer testes com esse tipo de produto. Acho realmente muito difícil que uma mulher se convença que o medicamento que está tomando vai evitar uma gravidez, desconhecendo que se trata de um medicamento falso, e que isso efetivamente aconteça. Lembro que a alegação da empresa responsável pela fabricação foi que venderam por engano cartelas de pílulas que serviram apenas para testes de embalagens, ou coisa semelhante. De qualquer forma, isso gerou uma confusão considerável, incluindo processos na justiça, com ganhos de causas, recursos, e por aí afora. Mas voltando à revista Planeta, e ao livro: porque a pergunta sobre ser ou não ser uma farsa a questão do placebo? Já sabemos que se uma pessoa tomar um medicamento falso, sem saber que é falso, poderá vir a obter resultados semelhantes aos que teria se tomasse um medicamento verdadeiro. Mas acontece que também já foi verificado, através de pesquisas, que o efeito placebo funciona até mesmo quando o paciente tem consciência do engano. Ou seja, ele sabe que é um placebo, mas como o médico receitou regularmente e informou que haveria um resultado positivo, o paciente se convence e seu organismo reage no sentido de provocar uma melhora, do mesmo modo que faria se estivesse recebendo um medicamento verdadeiro. Por outro lado, já foram constatadas também situações em que o paciente não apresentava melhoras, porque não teve consciência de estar sendo medicado, apesar de receber um medicamento verdadeiro. Por exemplo: um paciente está recebendo soro na veia, e o médico não lhe informa que também, junto com o soro, está ministrando um outro medicamento, para provocar uma melhora específica. E aí, em alguns casos, o paciente não melhora. Então, a pergunta que se faz é: o efeito placebo se baseia num engano ou num mecanismo químico que pode ser manipulado? Será que, sem o remédio, mas munidos apenas da nossa convicção na cura ou melhora, não teríamos como “convencer” nosso próprio organismo a tomar as medidas necessárias para provocar um resultado positivo? Até que ponto nosso cérebro tem domínio sobre o nosso corpo? É interessante notar que após tantos anos de evolução, tantos estudos feitos, tantas pesquisas, tanto empenho, ainda estamos em dúvida sobre o real alcance da capacidade do nosso cérebro (e da sofisticada e complexa relação que ele mantém com o resto do nosso corpo). Já diziam os antigos: “mens sana in corpore sano”. Ou seja, mente sã em um corpo são. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3585602424773015167?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3585602424773015167/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-44.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3585602424773015167'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3585602424773015167'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-44.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 44'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-5953886865720829075</id><published>2009-07-23T19:20:00.000-07:00</published><updated>2009-07-23T19:24:25.095-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 43</title><content type='html'>Fanny Ardant, grande atriz francesa, que foi mulher do famoso diretor francês François Truffaut no início da década de 1980 (ele faleceu em 1984, se eu não estou enganado), dirigiu um filme recentemente, aos 60 anos de idade, porque estava com muito tempo livre, conforme matéria publicada no encarte EU&amp;amp;Fim de semana do Jornal Valor Econômico no fim de semana passado. Uma das características da atriz e agora diretora, informada na matéria do jornal, é a de não assistir TV e não ler jornais, por isso o tempo de sobra. Diz ela que se informa sobre o que acontece em seu país e no mundo pelo que ouve de seus amigos. Achei isso espantoso. Como viver num mundo como esse de hoje, em que as notícias e acontecimentos chegam por tantas vias, tomando a decisão de não assistir ou ler? Será que ela também não lida com computadores, telefones celulares, palmtops, e toda essa parafernália da qual nos tornamos tão dependentes? Imagino que ela não deve ser aquele tipo de pessoa que tem que se “internar” para poder se desligar do seu blackberry. Ela não deve ter esse tipo de vício (termo correto para a dependência que criamos em relação aos nossos gadgets eletrônicos). Confesso que me sinto desconfortável se tenho que sair, mesmo que seja só para ir até a padaria mais próxima, sem levar o telefone celular. Mas ao mesmo tempo, já sinto um pouquinho de impaciência com a avalanche de novas informações, novos comandos, e outras novidades que os aparelhinhos trazem. Um exemplo prático é minha pouca vontade em tentar entender o amontoado de siglas que definem o aparato de uma TV de LCD atualmente. Sinto um pouco de preguiça em tentar desvendar os mistérios que há por trás dessas abreviações. Há pouco tempo atrás estive num shopping, para almoçar, e vi um vestido que serviria como um presente de aniversário para a Vanja, minha cunhada. Queria uma opinião da Fatima, minha mulher, sobre ele, mas não atinei, de cara, como fazer isso. Depois de um dia ou dois lembrei-me que meu telefone celular tem câmera fotográfica, o que seria um pouco óbvio para os mais jovens, mas não foi para mim. Tirei a foto do vestido, mas fiquei em dúvida sobre se a foto realmente tinha ficado registrada ou guardada (não ficou na tela esperando por um comando de “salvar”, ou coisa parecida, como em circunstâncias anteriores – com aparelhos mais antigos). Então parei por alguns instantes e comecei a fuçar para ver onde a imagem tinha ido parar. Premi alguns comandos do telefone, mas encontrei um pouco de dificuldade na busca. A (jovem) vendedora, apreciando a situação por trás do seu balcão, perguntou-me se eu tinha filhos. Eu disse que não. Ela então me disse que um filho já teria achado a foto. Aquilo mexeu com meus brios. Fucei mais um pouco, já com um pouco mais de ansiedade e impaciência, e descobri que o maldito aparelhinho guardava as imagens fotografadas automaticamente no cartão de memória (que eu nem sabia que estava ativo, apesar de saber que estava lá). Havia a possibilidade de guardar a imagem na memória do próprio telefone, mas ele já esteve pré-programado para arquivar (ou, modernamente, “salvar”) no cartão de memória. Foi um pequeno e chocho triunfo ter conseguido achar a foto sem auxílio externo, mas a sensação foi mesclada com um sentimento de premonição quanto ao futuro: por quanto tempo ainda vou conseguir acompanhar a evolução tecnológica? Hoje, no Caderno 2 do Estadão, Luiz Fernando Veríssimo conta, com a graça habitual, que se confunde com as torneiras do chuveiro (lembro de ter lido uma outra crônica dele em que ele dizia que mal entendia como um prosaica torneira funcionava, quanto mais um aparelho eletrônico qualquer!), porque antigamente elas tinham as letras F e Q para informar que se tratavam das torneiras de água fria e quente, respectivamente. Ou então, sem as letras, havia as cores azul (fria) e vermelha (quente). Agora sobraram duas torneiras idênticas (em hotéis, imagino), sem letras ou cores. Há uma ordem entre elas, mas ele esqueceu qual é (e eu também não sei): a da esquerda deve ser de água quente e a da direita a de água fria. Ou vice-versa. Quem sabe? E assim, me identificando com esse tipo de situação, cada vez mais vou me aproximando da minha mãe, cujo telefone celular serve exatamente para telefonar para os outros, ora fazendo, ora recebendo ligações. E só. Nada de convergência digital: um aparelho de telefone que concentre máquina fotográfica, tocador de músicas, sintonizador de rádios (em alguns casos, de TV também), agenda de telefones e endereços, agenda de compromissos, GPS, acessador de internet/e-mail, e por aí vai. Não sou aquele tipo de saudosista que sente saudade da máquina de escrever manual (que alguns jovens nem imaginam do que se trata, porque nunca viram). Era mais romântico, mas, em contrapartida, dava um trabalho danado. A evolução é bem vinda. Pena que chega um tempo em que ela vai acelerar e nós vamos ficar, inevitavelmente, para trás. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-5953886865720829075?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/5953886865720829075/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-43.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5953886865720829075'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5953886865720829075'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-43.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 43'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-7768053317681326150</id><published>2009-07-16T18:39:00.000-07:00</published><updated>2009-07-16T18:40:48.378-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Avenida Paulista'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 42</title><content type='html'>Avenida Paulista – Década de 1970&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui do alto,&lt;br /&gt;Onde o prédio domina&lt;br /&gt;E a janela escura inibe a luz natural,&lt;br /&gt;A rua parece um artifício,&lt;br /&gt;Um jogo extravagante e monótono,&lt;br /&gt;Onde o revezamento dos participantes se dá de forma peculiar, estranha,&lt;br /&gt;Como se o vencedor, depois de tudo, se esforçasse por externar sua vitória, quando descobrisse sua condição inalienável de vencido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui do alto,&lt;br /&gt;Onde o tédio domina,&lt;br /&gt;Vê-se a sucessão de semáforos intermináveis e inabaláveis em sua sanha impotente de manter o fluxo de veículos como alguma coisa coerente e democrática;&lt;br /&gt;Piscando, esses semáforos, intermitentemente,&lt;br /&gt;Às vezes em ondas, quando sincronizados,&lt;br /&gt;Ora destrambelhados, anárquicos, quando suas sintonias não coincidem com o que o próprio tráfego entende por sintonia;&lt;br /&gt;E comandam o trânsito, solenes,&lt;br /&gt;Apagando e acendendo, mesmo que esse trabalho nada mais represente do que simplesmente apagar e acender como um luminoso vulgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui do alto,&lt;br /&gt;Onde o medo domina,&lt;br /&gt;As motocicletas com escapamentos abertos ou as buzinas de carros impacientes se mesclam ao barulho do vento que estremece as persianas, e aos arrulhos das pombas namorando nas marquises do prédio ao lado;&lt;br /&gt;Há também as zoadas das sirenes de ambulâncias e bombeiros e polícias, e os ruídos típicos de uma construção de um edifício próximo,&lt;br /&gt;Além do pipoquear de uma solitária máquina de escrever, interrompido bruscamente por uma freada de automóvel que chega aqui em cima estridente como um grito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui do alto,&lt;br /&gt;Onde o prédio, o tédio e o medo dominam,Tudo se resume numa mágica bizarra de se perceber o burburinho da vida como um jogo de cenas sobrepostas, que não se chocam, independente da interferência inócua de estarem sendo observadas aqui do alto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-7768053317681326150?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/7768053317681326150/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-42.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7768053317681326150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7768053317681326150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-42.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 42'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3478903560814491647</id><published>2009-07-09T19:36:00.000-07:00</published><updated>2009-07-09T19:44:45.279-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Feriado'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 41</title><content type='html'>Nove de julho: feriado paulista. Não é uma coisa meio irônica? Ou, como diriam as pessoas mais conectadas, não com a nova ortografia, mas sim com a nova expressão coloquial da maltratada língua mater: Não é uma coisa “meia” irônica? Esse tipo de expressão (a segunda, não a primeira) sempre faz com que a gente pense, o que é muito positivo. O que será uma “meia” irônica? Dá para imaginar uma meia (aquela parte do vestuário que tem a função de vestir nossos pés, não a metade de alguma coisa), olhando para a gente e comentando, ironicamente: esse seu pé cheira sempre assim ou você andou enfiando o pé na jaca ultimamente? Aliás, “vestuário” me lembra uma pessoa que eu conheci que dizia “vestuário” quando queria dizer, na verdade, “vestiário”: “Sabe, faz muito tempo que não se faz uma reforma no vestuário da empresa”. Não, a pessoa não está se referindo à vestimenta dos funcionários, mas ao local em que eles trocam de roupa para trabalhar. De qualquer forma, ela (essa pessoa) pode ser considerada uma estudiosa da língua portuguesa, se comparada ao nível das pessoas que incluem comentários em chats de notícias dos sites Terra, Uol, Ig, etc. É a tal da Lei de Murphy: quando a gente lê um comentário que é um desabusado atentado terrorista contra as mais elementares regras do emprego da língua, logo em seguida outra pessoa dá uma rasteira na primeira e comete outro atentado, piorando o que já estava péssimo. E não costuma parar por aí: a coisa toda vai ladeira abaixo, até concluirmos que qualquer estatística sobre analfabetismo funcional sempre dará uma pálida ideia sobre a realidade reinante na terra brasilis. Claro que isso não é exclusividade nossa, já que vi estudos que apontam que nos EUA crianças que estão na quinta série do ensino fundamental não conseguem interpretar textos corretamente, ou então têm dificuldade para colocar no papel o que pensam, de maneira coerente e compreensível. Mas, voltando à questão original: a ironia está em que sempre foi divulgada a imagem de São Paulo, e por extensão dos paulistas, como sendo a locomotiva do país, um lugar para trabalhar e ganhar dinheiro. E aí o feriado de hoje só existe em São Paulo. O país inteiro entregado à labuta e São Paulo preso em um congestionamento, ou porque a primeira coisa que paulista faz em situações como essa é sair de São Paulo, e aí entopem as estradas de carros, ou porque alguma avenida principal está interditada para aqueles desfiles cívicos que devem ter ibope abaixo de zero. E é claro que haverá o alegre enforcamento da sexta-feira, criando uma ponte para o fim de semana. É o efeito Tiradentes: enforcar é com a gente mesmo. Nada de melindres com qualquer dia útil. Os quais, aliás, tem o sufixo “feira” justamente para indicar “trabalho”. Mais um aliás: que outro país você conhece que tem esses nomes para os dias da semana? Li que isso se deu, no nosso caso, porque os nomes originais (empregados largamente nos outros países latinos) têm caráter contrário à religião católica apostólica romana, porque supõem adoração/devoção a símbolos pagãos: astros celestes, como Marte, Vênus e por aí vai. Então, consideraram o Domingo como o primeiro dia da semana (mas mantendo seu caráter de dia de descanso), e aí nomearam os dias seguintes pela ordem numérica (mas como dias de trabalho). E eu não lembro porque Sábado e Domingo ficaram com esses nomes. Vou pesquisar. Mas não hoje ou amanhã, por causa do feriado e do enforcamento da sexta-feira. Fica para a próxima segunda-feira (em outras línguas: o dia da lua). Mas, quer saber? O que estava na minha cabeça era falar a respeito da FLIP (a Festa Literária de Paraty), destacando alguns fatos inusitados (como o Chico Buarque tendo que circular na cidade cercado de seguranças, ou então a curiosidade de o escritor português António Lobo Antunes, que originalmente foi psiquiatra, escrever seus livros à mão, em blocos de receituário médico, e outras coisas do gênero), mas a crônica tomou outro rumo, de maneira que esse assunto fica para uma próxima vez. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3478903560814491647?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3478903560814491647/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-41.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3478903560814491647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3478903560814491647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-41.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 41'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6678776677997565351</id><published>2009-07-02T18:38:00.000-07:00</published><updated>2009-07-03T06:16:50.812-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='educação'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 40</title><content type='html'>Folheando uma revista que recebi no escritório, voltada para o setor automotivo (o nome da revista me escapa agora, e estou em casa, não tendo como consultar; a falha vai seguir: talvez em outra crônica, tendo a revista em mãos, citarei o nome correto), vi uma crônica (também não me lembro o nome do autor; sei que quase no fim da revista havia uma outra crônica, escrita pelo Delfim Netto, que fiquei de ler depois) que falava de uma questão crucial na vida de qualquer pessoa: educação. Lá pelas tantas, o autor dessa crônica informa que apenas 10% das pessoas gostam de estudar (ou se interessam por), restando 90% que simplesmente não gostam. Mas ele não informa de onde tirou essa informação, não diz a fonte de onde vieram esses números, o que é uma falha considerável. De qualquer forma, a informação está lá, e eu resolvi assumir que são dados – digamos – confiáveis. Isso significa que uma esmagadora maioria só estuda por obrigação, sem prazer ou interesse. O que é uma pena, convenhamos. É claro que uma parcela da população se sujeita às agruras dos estudos para alcançar objetivos profissionais, o que resulta em alguma coisa como retorno financeiro, estabilidade, progresso, etc. Objetivos louváveis, sem sombra de dúvida. Mas aí estamos falando de atividades estanques, ou seja, o pensamento básico está formulado pressupondo que o estudo é uma etapa a ser vencida, mas que não deve ter continuidade na sequência profissional (o Word teima em colocar o trema em “sequência”, mesmo contra a minha vontade!). E aí repousa um erro sério e significativo: o estudo é uma atividade continuada, não estanque. E o autor da crônica daquela revista vai mais longe: diz que muitas atividades, mesmo aquelas que não são consideradas exatamente como culturais (como ler um gibi, por exemplo) também contribuem para a educação, na medida em que trazem novos componentes do saber, que vão se incorporando ao nosso lastro cultural (que eu citei no último Artigo Indefinido, o de número 39). Como diria Prof. Pasquale Cipro Neto, sempre que encerra suas falas: é isso. E não há país que seja considerado como desenvolvido, que não tenha investido pesadamente em educação, seja por via institucional, seja pela via privada. Minha memória pode estar me traindo, mas acho que já mencionei anteriormente que a Coréia do Sul é um bom exemplo. Na década de 1960 esse país estava atrás do Brasil, quando se comparavam índices educacionais, de desenvolvimento, de renda per capita. Houve desde então um forte comprometimento da sociedade coreana para que um plano educacional de longo prazo fosse implementado e levado a cabo. Um plano pesado, extenso e inclusivo. Uma política educacional para ser cumprida ao longo de vinte anos. Para isso reforçaram a qualidade do ensino, buscaram cérebros privilegiados no exterior, aumentaram as horas de permanência dos alunos nas escolas, e por aí afora. A Coréia do Sul acabou cumprindo uma trajetória parecida com a do Japão. Eu me lembro, na época da minha adolescência, e mesmo no início da idade adulta, que os produtos Made in Japan eram desprezados, por se tratarem, via de regra, de cópias (às vezes muito mal feitas) de produtos de melhor qualidade produzidos em paises mais desenvolvidos. Com o tempo isso foi sumindo, até desaparecer por completo. Hoje os produtos japoneses têm uma chancela automática de qualidade. A Coréia do Sul, ao implementar um esforço redobrado na educação, seguiu pelo mesmo caminho. Depois da abertura do mercado brasileiro promovida (atabalhoadamente) pelo ex-Presidente Collor, recebemos produtos do mundo inteiro, incluindo da Coréia do Sul. Havia os carros coreanos, por exemplo, que não primavam exatamente por qualidades estéticas ou mecânicas. E hoje, como estão os carros coreanos (inclusive sendo das mesmas marcas de então)? Seguramente não foi o mercado brasileiro que mudou, mas sim a qualidade do produto que vem de lá. E como isso aconteceu? Foi apenas e tão somente resultado de investimentos nas indústrias? É claro que não. Por trás de tudo isso está a sólida formação educacional. E isso sem falar que a Coréia do Sul não só ultrapassou o Brasil, nos comparativos de índices de desenvolvimento, como nos deixou comendo poeira. Mas, ao mesmo tempo, quando faço essas constatações (e ao mesmo tempo me desanimo, ao lembrar dos percentuais da crônica que citei lá no início), vejo que cada vez mais a nossa sociedade está se conscientizando da importância da educação continuada. Afinal, há como um advogado parar de aprender? Ou um administrador? Um economista? Conversei com um mecânico de bairro, dono de uma oficina onde cabem quatro ou cinco carros, e ele me disse que não tem como não estudar, senão ele fica para trás, já que os veículos evoluem significativamente (e rapidamente) com o passar do tempo. Estudar, aprender, praticar e continuar: um bom lema para um país como o nosso, que precisa urgentemente voltar os olhos para o combalido, desigual e capenga sistema educacional. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6678776677997565351?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6678776677997565351/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-40.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6678776677997565351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6678776677997565351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/07/artigo-indefinido-ano-1-n-40.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 40'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-7662257422493611036</id><published>2009-06-25T17:17:00.001-07:00</published><updated>2009-06-25T17:22:47.799-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='aforismos'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 39</title><content type='html'>O escritor José Paulo Paes (também poeta e tradutor) dizia que cultura é o que nos resta depois da leitura. Ou seja, nosso lastro cultural é formado por uma parte daquilo que lemos e aprendemos. Por exemplo: lemos um livro qualquer, e daí a um tempo não lembramos sequer o nome do autor; mas na nossa mente ficou impregnada uma mensagem, um entendimento, uma compreensão, uma nova visão do mundo (como diria o Caetano Veloso: ou não). A soma dessas partes que sobrevivem formam a cultura de cada um. Mas não entenda isso como o velho “decoreba”. Apenas decorar um texto, um poema, uma citação, não faz de nós alguém de cultura superior. Agora, aquele que soube “digerir” as informações, processando-as no seu próprio caldo de cultura, retendo conceitos, metamorfoseando o modo como enxerga o mundo à sua volta, esse está fadado a ter uma cultura significativa. Aliás, essa é a única riqueza real que podemos ter, porque qualquer outra, notadamente de cunho materialista, não nos pertence; apenas está conosco temporariamente, até passar para as mãos de outras pessoas, que darão a ela destinos insuspeitados. E eu pensei nisso quando comecei a ler, pela primeira vez, o livro “Moby Dick”, escrito pelo Herman Melville (Editora Nova Cultural). Logo no início há um capítulo destinado apenas a citações (mais de 80 delas), todas voltadas ao assunto “baleia”. Há desde citações retiradas da Bíblia, até de Charles Darwin, o naturalista. Até aí, já fiquei impressionado. Depois, logo no primeiro capítulo, o autor faz a seguinte consideração: “E há toda a diferença do mundo entre pagar e ser pago. O ato de pagar talvez seja o castigo mais desagradável que os dois ladrões de pomar nos legaram. Mas ser pago, que há de comparável a isso? A educada presteza com que alguém recebe dinheiro é realmente maravilhosa, considerando que tão gravemente acreditamos que o dinheiro é a raiz de todos os males terrenos e que em hipótese nenhuma um homem endinheirado entrará no paraíso. Ah! Com que alegria nos despachamos para a perdição!”. Fantástico! Irônico, sutil, harmonioso. E, ao mesmo tempo, tocando em um ponto crucial do comportamento puramente hipócrita. Às vezes podemos ser “tocados” por uma composição como essa. Outras vezes basta uma frase bem articulada, um pensamento inteligente, uma “tirada” esperta. No Dicionário Aurélio, encontro a definição para esse tipo de frase: aforismo (S.m. Sentença moral breve e conceituosa; máxima). Na revista Veja atual (Edição 2118, ano 42, n. 25, de 24/06), Millôr nos brinda com a seguinte pérola: “A maior parte das pessoas nunca soube do que é que se está falando”. Para chegar a essa mesma conclusão, provavelmente eu gastaria uma crônica inteira. E não sei se definiria esse pensamento tão bem quanto essa frase, curta e inapelável. Millôr sempre foi um grande frasista. Dele, sempre lembro a célebre: “Livre como um táxi”. É a própria sofisticação da banalidade. Em outra revista Veja, do início do mês (Edição 2115, ano 42, n. 22), há uma matéria muito interessante sobre Benjamin Disraeli, um judeu conservador que foi por duas vezes primeiro-ministro britânico (na segunda metade do século XIX). Tudo bem, eu também nunca ouvi falar dele. Mas o que chama a atenção nessa matéria são as frases de Disraeli. Veja umas amostras: “Ordem e limpeza não são instintivas. Precisam ser cultivadas”; “A ação pode não trazer felicidade. Mas não existe felicidade sem ação”; “As paixões, as diferenças políticas e os prazeres são comuns. O que distingue um homem é a sabedoria”; “Como regra geral, o homem mais bem sucedido na vida é aquele com as melhores informações”; “A vida é muito curta para ser pequena”; e por aí afora. Quanto de verdade, de ironia, de bom senso, existe em cada aforismo desses? Seria possível fazer uma composição dessa qualidade, sem ter forjado inicialmente uma sólida formação cultural? E é claro que, falando em aforismos (e citações, e máximas, e epigramas) não posso deixar de falar de Oscar Wilde, por coincidência outro britânico, que além de nos legar obras primas na literatura (e no teatro), cunhou também frases que se tornaram inesquecíveis: “Todo homem mata aquilo que ama” (essa está no meu livro “Fragmentos de uma rua sem fim”, ainda à procura de uma editora); “As mulheres foram feitas para serem amadas, não para serem compreendidas”; “O apaixonado começa enganando a si mesmo e acaba enganando os outros. A isso o mundo denomina romantismo”; “Uma idéia que não seja perigosa não é digna de ter esse nome”; “A coerência é o último refúgio dos que não têm imaginação”; “Experiência é o nome que damos a nossos erros”; “A tragédia da velhice consiste não no fato de sermos velhos, mas no fato de ainda nos sentirmos jovens”. E isso é só um aperitivo. Mas, por enquanto, eu fico por aqui. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-7662257422493611036?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/7662257422493611036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-39.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7662257422493611036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7662257422493611036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-39.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 39'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-990802677259661158</id><published>2009-06-18T19:00:00.000-07:00</published><updated>2009-06-18T19:01:39.247-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Língua'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 38</title><content type='html'>Já sei, de antemão, que estou ficando repetitivo, mas para alguma coisa que preste deve servir a idade que avança, nem que seja para ficar repetitivo, sem se importar muito com a repreensão daqueles que nos cercam. Meu pai, por exemplo, como todo ser humano que chega a uma idade – digamos assim – avançada, repetia velhas histórias incontáveis vezes (ou, como diria aquele astronauta do filme Toy Story: ao infinito e além). E eu certa vez assisti a um episódio de um seriado estrelado pelo Bill Cosby (à época o ator mais bem pago dos EUA), no qual o pai do personagem dele (ele interpretava um médico da classe média americana) aparece para uma visita, e desanda a contar uma história comprida, de quando ele pegou em armas (acho que na Segunda Guerra Mundial). A cada frase que o velho pai falava, sempre com pequenos lapsos de memória no final, o filho se encarregava de completar. Só depois de algum tempo é que o velho pai deu por si e perguntou, curioso e espantado: eu já contei essa história para você? Ali eu enxerguei o meu pai, assim como milhares (ou milhões) de outros filhos e filhas. A vantagem do meu pai é que ele era dono de uma memória prodigiosa (que eu não herdei, com a mais absoluta certeza), de maneira que sempre surgia uma história nova a ser contada, só que intercalando uma série vistosa e sólida de um tanto de histórias repetidas. Mas a minha repetição, lá do início do texto, diz respeito ao assunto “língua”. É que, depois de ter postado a última crônica, só no dia seguinte me dei conta que faltou citar um novo sucesso de audiência: o sujeito repetido. Também não sei de onde surgiu esse modismo, mas é só prestar um pouquinho de atenção e lá aparece, vindo do nada, a nova firula verbal. Todos estão falando assim, donde deduzo que esse comportamento é contagioso. O repórter esportivo (sempre ele!) encara a câmera e lasca: “A seleção brasileira de futebol, ela está preparada para a Copa das Confederações”. Ou a comentarista de economia: “O Henrique Meirelles, ele tem se preocupado com a política fiscal”. Ou uma pessoa comum entrevistada na rua: “O Lula, ele tem apoio do povo porque fala a nossa língua”. Mas porque diacho a frase tem que ser interrompida para logo em seguida o sujeito ser repetido? Mistério! Mas repare você nessa nova moda. Se você ainda não está falando assim, não se preocupe; em breve vai estar contagiado e falando desse jeito, sem perceber. E a questão da língua é importante, sim senhor! Na revista Planeta, em sua edição de Maio/09, há uma matéria sobre as línguas no mundo. O número total é estimado em 6.000, das quais cerca de 2.500 estão sob algum tipo de risco, conforme um balanço feito pela Unesco. No ano passado a língua “eyak”, falada só no Alasca (território norte-americano), desapareceu junto com a morte da última pessoa que a praticava. Isso aconteceu também com a língua “ubykh”, da Turquia, dezesseis anos antes. E com o “manês”, da Ilha de Man (no Mar da Irlanda), em 1974. A reportagem da revista Planeta destaca que ao longo das três últimas gerações cerca de 200 línguas desapareceram, e com elas sumiram também suas formas exclusivas de raciocínio e pensamento, suas lendas, suas características próprias e geralmente intransferíveis. O termo que a revista usa é “universo”, quando tenta descrever a abrangência de cada língua. Ou seja, a língua traduz a percepção que temos de tudo o que nos cerca e nos diz respeito. O que não é pouca coisa, convenhamos. Por isso que não dá certo fazer traduções literais de uma língua para outra, pegando palavra por palavra de um texto e tentando fazer com que o amontoado de palavras traduzidas tenha sentido. A formulação do raciocínio é diferente, o que influencia não só na ordem com que as palavras são dispostas em cada frase, mas também sofre influência direta do lastro cultural que cada língua carrega consigo. Também por isso fica difícil pensarmos em uma língua e tentarmos falar em outra. O certo é pensarmos na mesmo língua com que iremos nos expressar. Só assim teremos fluência e seremos compreendidos. Caso contrário, nosso desempenho (e desenvoltura) vai se igualar, quando muito, ao do Tarzan: “Me, Tarzan, you, Jane”. E olhe lá! Nos falamos. Na mesma língua e, se possível, sem maltratá-la em demasia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-990802677259661158?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/990802677259661158/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-38.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/990802677259661158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/990802677259661158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-38.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 38'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6674380633429764683</id><published>2009-06-11T19:37:00.001-07:00</published><updated>2009-06-11T19:42:16.233-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 37</title><content type='html'>João Ubaldo Ribeiro tem escrito com frequência sobre a questão da língua portuguesa, da maneira como a estamos (mal) tratando hoje em dia. Ele diz repetidamente, nas suas crônicas dominicais no jornal Estadão, que implicar com as incorreções é um pouco de caturrice - sintoma típico da idade que avança celeremente (nos tornando mais impacientes com os deslizes alheios) - porque a língua é realmente dinâmica e, portanto, se transforma continuamente ao longo do tempo (nem sempre para melhor, é bom que se diga). Considerando a rapidez da evolução dos meios de comunicação que vemos, não é de se espantar que a língua seja alterada velozmente. O problema é o mau uso, o desconhecimento das regras básicas, ou até mesmo as tentativas canhestras de buscar uma sofisticação idealizada, mas que passa muito ao largo do que seria efetivamente qualquer coisa que se pudesse designar como sofisticação, para dizer o mínimo. Periodicamente a juventude cria códigos novos e próprios, como uma forma de se distinguir e assim se distanciar do que é considerado velho e ultrapassado. Assim surgem as gírias, sempre vinculadas às diversas tribos que os jovens compõem. Um surfista fala diferente de um skatista, que fala diferente de um punk, que fala diferente de um gótico, ou de um emo, ou de seja lá o que for que surja no panorama atual e futuro. É um comportamento, paradoxalmente, antiquíssimo. Ou seja, sempre que nos sentimos modernos, porque passamos a fazer parte de uma comunidade (por assim dizer) absolutamente nova, e para que sejamos reconhecidos e identificados passamos a falar uma série de novas expressões, na verdade estamos nos comportando de uma maneira absolutamente antiga, porque esse comportamento existe desde sempre. Na questão da “sofisticação” surge, impávido colosso, o gerundismo, propagado com firmeza e decisão por qualquer atendente de telemarketing que se dê ao respeito. “Estarei transferindo a ligação, senhor!”, ou “Estarei providenciando o envio de um técnico!”, e por aí vai. Quem nunca ouviu uma bobagem dessas? Já ouvi e li diversas explicações a respeito, uma delas destacando que seria uma provável influência norte-americana (é tudo junto, ou ainda tem hífen?), por alguém ter traduzido erroneamente scripts de atendimento, sem se atentar para o bom emprego na nossa língua. Há uns vinte ou trinta anos atrás houve a invasão do “tipo”, uma muleta verbal que possibilitava dar um tempo para que o falador pensasse. Era, tipo assim, um jeito enviesado de falar. Recentemente houve a invasão do “você”, sei lá porque. O comentarista esportivo está falando sobre, por exemplo, a seleção brasileira de futebol e aí dispara: “você” pega e tira um volante, e aí “você” põe mais um atacante, de maneira que “você” passa a ter mais uma opção de ataque, só que “você” desguarnece a defesa e o meio de campo. Eu fico intrigado. “Eu” não sou o “você” a quem o tal comentarista se refere. Afinal, “eu” não tenho a menor capacidade de interferir na escalação da seleção brasileira de futebol. Aliás, eu nem sei direito qual é função específica de um volante. Imagino que ele, o comentarista, não esteja falando direta e exclusivamente com o treinador da seleção. Então, com quem ele está falando? Antes que alguém pense que estou subestimando a cultura dos comentaristas esportivos, me apresso em acrescentar que esse comportamento, digamos assim, linguístico, se espalhou como uma pandemia (palavra da moda!), afetando indiscriminadamente toda e qualquer pessoa que tenha um microfone à disposição (e que não tenha um texto escrito na sua frente). É facílimo reparar. Economistas, advogados, políticos, repórteres, qualquer que seja a profissão, ninguém está isento de usar indiscriminadamente o “você”. “Você” baixa a taxa de juros, “você” emite uma medida provisória, “você” ingere uma quantidade indevida de álcool antes de dirigir, “você” define os rumos da seleção brasileira de futebol. Ou seja, “você” está perdido, seja lá quem “você” for.  João Ubaldo ouviu, por esses dias, alguém dizer “peluma”. Acho que foi na televisão, e acho que foi um repórter (ou uma repórter, não sei bem). Temos então “peluma razão muito simples”, ou “pelum motivo”, etc. Detalhando: pelum, peluma, peluns, pelumas. Pensa que é brincadeira? Espere e verá! Então “você”, “tipo” assim, “estará procurando” “peluma” nova forma de expressão. É claro que nada disso é tão mortal. José Saramago disse que “o que é obsceno é que se possa morrer de fome”. O resto é o resto. Sobreviveremos. E eu fico por aqui. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6674380633429764683?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6674380633429764683/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-37.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6674380633429764683'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6674380633429764683'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-37.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 37'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6280166939399295089</id><published>2009-06-04T18:58:00.000-07:00</published><updated>2009-06-05T05:34:18.207-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Big Brother II'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 36</title><content type='html'>No penúltimo Artigo Indefinido eu falei sobre as origens do “Big Brother”, e esse assunto retorna quando li a respeito do mais novo invento da Microsoft: o relógio Harry Potter - que tem esse nome em função do filme, no qual aparece algo semelhante. Em termos de aparência, o tal relógio (da Microsoft) pode ser considerado como simples. De fato, há até um certo apelo nostálgico em seu desenho. Na parte do mostrador há um círculo que tem marcado, ao longo do seu perímetro (onde constariam as horas) três faixas, onde estão escritos os termos: casa, trabalho e escola. Ao centro há outro círculo, em que nada consta. Ao chegar em casa, qualquer pessoa da família detentora do relógio olha para o mostrador, e identifica onde estão os demais familiares, já que suas fotos estarão alocadas nos espaços correspondentes ao local onde se encontram. Caso não estejam no trabalho, na escola ou em casa, suas fotos vão para o círculo central. Pelo que eu entendi, vai dar também para identificar se estão no trajeto de um local para o outro. Para que tudo isso ocorra, cada pessoa da família tem que ter um telefone celular, no qual será instalado um programa específico de comunicação. De início, para que o relógio funcione a contento, cada familiar se responsabiliza em teclar no telefone quando se encontrar nos locais específicos. Mas isso ocorre apenas uma vez. Depois disso, o relógio já estará apto a dedurar a localização de cada um. Claro que há um poderoso componente de segurança envolvido nessa história. É reconfortante para qualquer um chegar em casa e checar de imediato o destino dos demais familiares. Ao mesmo tempo, cada vez mais podemos dizer adeus à nossa privacidade. Já não bastam as câmeras em todos os cantos possíveis e até mesmo inimagináveis. O próximo passo, que não deve tardar, será a visualização mútua através do telefone celular. Aí cairão por terra uma avalanche de pequenas mentiras do cotidiano: “Querida, ainda estou na empresa, mas estou fora da minha mesa, por isso não atendi o telefone fixo”, “Mãe, estou estudando na casa da Claudinha, para a prova de amanhã”, “Pai, vou chegar um pouquinho mais tarde porque estou na casa do Tiago, jogando videogame”, e por aí vai. Tudo isso é bom e mau ao mesmo tempo. Ou, pelo menos, tudo isso abrange várias características diferentes, que podem ser boas ou más, dependendo do ponto de vista de quem avalia. Li hoje que um sujeito, nos EUA, escreveu no Twitter (um site provedor de miniblogs, com informações de no máximo 140 caracteres - até o Barak Obama está lá) que estava viajando, e aí quando voltou viu que sua casa fôra assaltada. Coincidência? Talvez, mas fica sempre a desconfiança: e se alguém se valeu dessa informação para tirar um proveito ilícito? Tudo é possível. Porque a pergunta que o Twitter faz é: o que você está fazendo agora? Então a tendência é colocarmos as situações prosaicas do nosso cotidiano, e aí caímos na armadilha de informar mais do que devemos. E as informações sobre dados pessoais em sites como o Orkut? Também pode ser um problema sério, principalmente se de um lado estiver uma criança ingênua, indefesa e, principalmente, filha de pais desatentos. E por aí vai. Tecnologia é ótima e, quer queiramos ou não, é inevitável. Na categoria dos gadgets, também li sobre o aperfeiçoamento das telinhas portáteis para leitura de livros e jornais. Se eu não me engano a Amazon está lançando um aparelho novo, maior do que aqueles apresentados até agora, para ficar mais próximo do tamanho dos livros e jornais feitos de papel. Acessamos apenas o que nos interessa, fazemos downloads (ou não), lemos e descartamos (ou não). Qual a quantidade de madeira que deixará de ser derrubada, para gerar a celulose, que se transformará no papel? Como isso refletirá na questão da sustentabilidade (termo muito em voga), para o meio ambiente, para a nossa qualidade de vida? Aliás, faz anos que ouço os gurus da modernidade tecnológica propagarem aos quatro ventos que em breve não manipularemos mais papéis. Mas, por enquanto, não consigo ver uma diminuição significativa na quantidade de papéis que nos rodeiam, principalmente nos escritórios. Não posso deixar de sentir um certo desconforto com essa situação. Pensar que não teremos futuramente um livro tradicional, de papel, para checarmos com os nossos sentidos: tato, visão, olfato. E como ficarão as bibliotecas, as livrarias? Para mim, não é exatamente um exercício de prazer imaginar esse futuro um tanto incerto. Mas a tecnologia acaba por nos atropelar, e se não nos cuidarmos, se não prestarmos atenção nos avanços benvindos que essa parafernália trará, ficaremos condenados a figurarmos como peças de museu, arcaicos e ultrapassados, resmungando pelos cantos: "&lt;em&gt;no meu tempo...&lt;/em&gt;" Mas a soma de computador com internet é que deu na possibilidade de poder fazer coisas como este blog, e através dele é que: Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6280166939399295089?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6280166939399295089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-36.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6280166939399295089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6280166939399295089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/06/artigo-indefinido-ano-1-n-36.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 36'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-7259336348332696922</id><published>2009-05-30T17:35:00.001-07:00</published><updated>2009-05-30T17:40:44.071-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Vendas'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 35</title><content type='html'>Antes de qualquer coisa, peço desculpas antecipadamente se o teor deste texto soar como alguma coisa oriunda do famigerado ramo de auto-ajuda. Se isso ocorrer, é porque foi sem querer. Não é essa a minha intenção. Apenas desejo explanar sobre um tipo de comportamento que me intriga há muito tempo. Dito isso, vamos lá. Há uma historieta bem antiga, cuja mensagem era dirigida à nossa visão de mundo: dois vendedores de uma indústria de sapatos do Brasil foram despachados para um pobre país da África. Havia o franco interesse de se expandir os limites geográficos das vendas, e os estrategistas haviam concluído que os países de primeiro mundo estavam sem margem para se ampliar as vendas. Logo, a ideia era buscar territórios novos e inexplorados. Lá chegando, os vendedores constataram que a maioria da população andava simplesmente descalça, seja pela questão econômica, seja pelo hábito. O vendedor pessimistra entrou em contato com a matriz da empresa e avisou, sucinto: “nem precisa pôr as máquinas para funcionar; aqui, neste país, as pessoas não usam sapatos; volto em breve”. Por outro lado, o otimista não conseguia esconder seu entusiasmo: “coloquem um turno a mais na fábrica; há aqui mercado de sobra; existe uma quantidade enorme de pessoas que ainda não tem sapatos”. E essa história voltou do fundo da minha memória, a propósito de uma circunstância que vivi hoje, sábado, 30 de maio. Fui, logo pela manhã, fazer uma compra, dessas que a gente faz pelo menos de dez em dez anos. No meu caso específico, a última compra foi, seguramente, há mais de 14 anos: um colchão novo. Por coincidência, ao ligar a TV pela manhã, antes de sair, vi uma propaganda de uma rede de lojas que vendia colchões e aquilo me incentivou. Resoluto, dei uma volta pela Av. Ibirapuera, no bairro de Moema, no trecho que vai da própria Av. Moema, mais no início da avenida, até próximo do Shopping Ibirapuera, quase chegando na Av. dos Bandeirantes. Duas constatações: era um pouco cedo demais (cerca de 8:30 hrs), e as lojas estavam todas ainda fechadas; e havia um número muito alto de lojas de colchões nesse trecho da avenida, incluindo mais de uma da mesma rede. Aquilo me impressionou (a quantidade de lojas, não o fechamento). Eu nunca havia prestado atenção nesse detalhe: o mercado de venda de colchões deve estar em alta. Lembrei da propaganda na TV e também daqueles anúncios enormes na Vejinha São Paulo. É até difícil fazer uma escolha, dado o alto número de opções que temos hoje, no tocante à variedade de colchões à venda. Uma das razões, imagino, foi o advento da chamada “cama box”, que transformou esse mercado. Agora, além de comprar o colchão, o comprador acabava por alterar a estrutura da cama como um todo, tendo que dispensar a cama propriamente dita, além de ter que se preocupar em também alterar a cabeceira. Isso, que não é de hoje, deve ter alterado significativamente esse mercado. Aí voltei para Santana, que fica perto do meu apartamento e fui numa das lojas daquele rede da qual eu vira o anúncio pela manhã. Passava pouco das nove horas quando cheguei lá e a loja estava recém aberta. No piso inferior estavam só os colchões. No piso superior (na verdade apenas um patamar meio andar mais elevado), estavam os vendedores, cuidando dos seus afazeres iniciais. Me aproximei da escada que fazia a ligação entre os pisos, e da parte de cima se aproximou um vendedor, bonacheirão e lento, parecendo um pouco contrariado por ter que descer aquele lance de escada naquele momento. Mas isso foi só um pensamento fugaz, que afastei rapidamente. Eu comprei um colchão, mas ele não vendeu. E eu fiquei na dúvida se ele percebeu isso claramente. Só fui saber o nome dele quando ele preencheu o pedido de compra (ele não se apresentou). E o colchão comprado foi aquele da propaganda televisiva: ele não se entusiasmou em mostrar outros. Comentei que morava num apartamento, e que uma cama box seria exagerada, por isso a opção apenas pelo colchão. E comentei também que eu poderia, futuramente, comprar uma cama box para a minha casa em Jacareí. Perguntei se entregavam lá. Ele quis saber a distância. Eu disse e ele informou que não haveria a cobrança de frete. Mas foi só. Perguntei-lhe sobre o mercado de colchões. Ele estava vendendo bem, assegurou-me, mas o mercado estava péssimo. Como eu havia mencionado minha ida à Av. Ibirapuera, ele me segredou: aquelas lojas vão fechar; devem sobrar apenas uma ou duas; em parte é a crise, e em parte é o fato de já ter passado a onda provocada pela aparição da cama box. Fiquei surpreso: a quantidade de lançamentos imobiliários em São Paulo, apesar da crise, não aponta para essa situação. E as pessoas continuam casando. Mas quem sou eu para entender de vendas de colchões? Enquanto esse vendedor preenchia o meu pedido de compra, o vendedor que estava na mesa ao lado mostrou-lhe o visor de uma calculadora e avisou: “onze, precisamos ainda vender onze”. Perguntei se era a meta do mês e ele confirmou. O outro vendedor me apontou com um aceno de cabeça e disse: “menos um”. Saí de lá intrigado. Se o mercado está ruim, se eles têm uma meta para cumprir, porque o vendedor não agiu proativamente na minha compra? E porque ele nem se preocupou com a informação que deixei no ar, sobre a futura compra para a minha casa em Jacareí? Já dentro do carro me lembrei de uma entrevista, de muito tempo atrás, nas páginas amarelas da Veja, em que um norte-americano (não me lembro mais de quem se trata) constatou que ao longo da vida havia comprado 12 ou 13 carros novos, mas nunca na mesma concessionária ou loja, apesar de às vezes comprar carros do mesmo fabricante. E a razão era simples: ninguém, das lojas onde ele comprou, nunca mais entrou em contato com ele, apesar de todas as informações de que dispunham a seu respeito. Venda feita, venda enterrada. E também me lembrei de uma outra reportagem, na Vejinha São Paulo, na qual era destacado o melhor vendedor de carros (acho que de São Paulo): uma mulher. Seu truque? Uma simples agenda, na qual estavam anotados todos os nomes, telefones (e as principais características das vendas) de todos os seus clientes. Periodicamente ela entrava em contato com cada um deles, para saber da satisfação deles com suas compras, para informar sobre as novidades, ou simplesmente para conversar. E assim ela se transformou numa campeã em vendas. E a minha última compra de um carro novo foi há mais de quatro anos atrás. Nunca mais alguém da concessionária (de Jacareí) entrou em contato comigo. A fábrica me enviou um burocrático questionário, para apurar meu parecer sobre a minha compra, o qual eu respondi cheio de entusiasmo (minhas respostas transbordavam para o verso do papel). Mas a coisa parou por aí. E eu paro por aqui. É mesmo só a crise que prejudica as vendas no varejo? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-7259336348332696922?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/7259336348332696922/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-35.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7259336348332696922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7259336348332696922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-35.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 35'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-5896424289541530720</id><published>2009-05-28T18:46:00.000-07:00</published><updated>2009-05-28T18:49:01.186-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Big Brother'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 34</title><content type='html'>Alguns dias atrás fiz um comentário entre colegas, a respeito do nível cultural das pessoas mais jovens, nesses dias que correm. É absolutamente impressionante a quantidade de informações que está disponível atualmente, e também impressiona a facilidade que qualquer um tem para acessar essas informações. O Google taí que não me deixa mentir (ou pelo menos faltar um tantinho com a verdade). Uma única palavra digitada no campo de busca, um mísero clique, e milhares de páginas são disponibilizadas, abrangendo uma infinidade de variações sobre o mesmo tema. É claro que sempre tem um senão: há um número muito significativo de pessoas que está abaixo da linha da pobreza no que tange ao acesso à internet. Por isso somos bombardeados tão freqüentemente, pelos meios de comunicação, com termos como “inclusão digital”, que vem à reboque do básico “inclusão social”. Mas não é sobre isso que quero falar neste momento. O que eu quero falar já é, de certa forma, de domínio público. É simples: apesar do volume de informações disponível, da possibilidade de pesquisar quase que indefinidamente qualquer tema que nos venha à cabeça, do alcance imediato a praticamente qualquer esfera do conhecimento humano, parece-me que isso tudo não influenciou positivamente a cabeça dos usuários. É claro que volume não representa necessariamente qualidade. Ao olhar para a tela do computador, acessando a internet, tenho a sensação descrita por Caetano Veloso na música “Alegria, alegria” (diante de uma banca de jornal abarrotada de revistas): quem lê tanta notícia? Ninguém lê, com certeza, mas isso não vale como um bom argumento diante da neurose de leitores obcecados como eu. A internet veio para alterar o mundo, mas a sua influência não chegou ao ponto de provocar uma revolução no nível cultural da população. Às vezes me sinto como parte de uma distopia, ou uma antiutopia, inserido em um futuro que contrariou os vaticínios utópicos dos videntes do passado. Aliás, isso me lembra de perguntar: você sabe o que é um evidente? Pois bem, é um vidente virtual, eletrônico, um e-vidente. Evidente! E distopia (o contrário de utopia) me remete a George Orwell, que escreveu um livro descrevendo uma sociedade com características francamente antiutópicas: 1.984. Uma curiosidade: sempre me perguntei o porquê desse ano específico no título desse famosíssimo e aclamado livro. E só há bem pouco tempo soube que se deve apenas à inversão dos dois últimos dígitos do ano em que o livro foi escrito: 1.948. Talvez você não conheça esse detalhe, e talvez nem mesmo você tenha ouvido falar do livro ou do seu autor. Mas foi nesse livro que surgiu a figura emblemática do “Grande Irmão”, em inglês o tal “Big Brother”. O autor projetou para o futuro uma sociedade totalitária, sem democracia, sem livre manifestação, sem a livre participação dos indivíduos. Sem liberdade. Uma ditadura extremada, enfim. Algo como, nos dias de hoje, a Coréia do Norte. Ou seja, bem longe de qualquer ideal utópico (a não ser para aqueles que se imaginam como “líderes” de uma sociedade oprimida até o limite da exaustão). E o papel do “Big Brother” era o da eterna vigília sobre todos os cidadãos, devassando suas vidas, de maneira que ninguém tivesse direito à privacidade. Assim todos seriam anulados, reduzidos à mera massa de manobra. O dispositivo que permitia essa invasão era a Teletela, nome inventado pela Novilíngua, uma língua nova, forjada pelos detentores do poder, que tinha como principal característica impedir a expressão de qualquer tipo de opinião que fosse contrária ao regime estabelecido. E a Teletela funcionava como as câmeras modernas instaladas aos montes nos domínios físicos do programa homônimo da Rede Globo. Com uma distinção: possibilitava ver e ser visto ao mesmo tempo. Como se fosse um aparelho de TV que fosse também uma câmera. E o nome “Big Brother”, originado no livro, caiu como uma luva para esses programas de reality show, que funcionam mesmo como show (de categoria muito discutível), mas que passam bem longe da reality. Tudo bem, não é um programa educativo, e nem tem a função de ser sério ou formal. É apenas show, feito para entretenimento, para que os telespectadores possam se sentir como se tivessem encarnado na pele do “Grande Irmão”: veem o quanto querem, devassam a intimidade alheia (apoiados na tendência universal para o voyeurismo: quem não gosta de olhar pelo buraco da fechadura?), e opinam sobre o futuro de cada participante, decidindo o destino de cada um conforme o andar da carruagem. E é muito significativo (para compreender os tempos de hoje) que aquele livro tão sombrio tenha gerado um filhote desse gabarito: despropositado, efêmero, inconsequente e vazio. E agora me diga: quantos, dos que assistem, tem alguma noção da origem do nome (e do mote) do programa? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-5896424289541530720?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/5896424289541530720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-34.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5896424289541530720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5896424289541530720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-34.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 34'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3157029319214431736</id><published>2009-05-21T19:15:00.001-07:00</published><updated>2009-05-21T19:21:17.814-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='matemática'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 33</title><content type='html'>Recebi dois e-mails, enviados pelo Roger Nóbrega e pelo Walter Abduch, ambos com origem na crônica anterior, sobre matemática, e ambos, coincidentemente, apresentando as mesmas demonstrações de cálculos numéricos, com resultados surpreendentes. São evoluções de cálculos matemáticos, em forma de pirâmide, que evoluem simetricamente, apresentando, nos resultados, sequências numéricas muito interessantes. E esses e-mails me remeteram ao tempo em que li, pela primeira vez, o livro “O homem que calculava”, do Malba Tahan. Só muito tempo depois (e pode pôr muito tempo nisso) é que descobri que o nome do autor era um pseudônimo de um professor de matemática brasileiro, o que não tirou o encanto que a leitura do livro me provocou, e que persiste até hoje. Recentemente achei esse livro em uma livraria, e acabei comprando e lendo novamente (na infância/adolescência li mais de uma vez, com certeza). Tive que me despojar do olhar mais maduro, de forma a poder encarar essa leitura agora com um olhar de antigamente, e acho que em parte eu consegui. Percebi que continuo gostando do livro, das suas historietas matemáticas, das demonstrações, dos enigmas, das lendas, dos meandros complexos e sutis. Busquei o livro na estante aqui de casa, mas não encontrei. Ele deve estar naquele limbo para onde silenciosamente os livros vão, como velhos elefantes que se retiram da manada para morrer. E agora me recordo da fábula sobre o surgimento do jogo de xadrez, narrado nesse livro. Diz a história que um sultão havia ficado muito triste por ter perdido um filho em uma guerra. Na tentativa de fazê-lo se alegrar novamente, um grupo de sábios propôs um prêmio para quem conseguisse tal intento. E aí um jovem se apresentou, munido do jogo de xadrez, que ele havia inventado. Ele mostrou ao sultão, ensinando-lhe as regras e o jeito de jogar. O jogo nada mais era do que uma guerra estilizada, com as peças representando os participantes, desde a figura máxima, que era o próprio sultão (ou rei), até os valorosos soldados (ou peões) que atuavam nas frentes da batalha. Um dos ensinamentos básicos do jogo era o fato de, às vezes, ser necessário sacrificar uma peça, como forma de se conseguir alcançar a vitória. O sultão gostou muito do jogo, da analogia com as estratégias das guerras, e aos poucos foi retomando o gosto pela vida, até que se recuperou totalmente. Então ele disse ao rapaz que escolhesse qualquer prêmio que quisesse, porque seu desejo seria satisfeito. Mas o rapaz insistia que seu maior prêmio fôra conseguir com que o sultão recuperasse o prazer de viver, e portanto já se sentia plenamente recompensado. Mas o sultão não se conformava com aquilo, e continuou insistindo para que o rapaz aceitasse alguma coisa. Aí entrou a matemática. Vencido pela insistência, o rapaz disse que se sentiria recompensado se fosse pago com grãos de trigo. Pegou o tabuleiro do jogo de xadrez e orientou, placidamente: um grão de trigo na primeira casa, dois grãos na segunda, quatro grãos na terceira e assim sucessivamente, sempre dobrando a quantidade, até a última casa. O sultão desdenhou daquele pedido insólito, mas pediu aos seus sábios para que calculassem a quantidade total. Quando os sábios retornaram, o sultão ficou perplexo com o resultado: não havia grãos de trigo suficientes em todo reino, que fosse suficiente para pagar ao rapaz. Já na casa de número 32, na metade do tabuleiro (são 64 casas) a quantidade seria de 2.147.483.648 grãos (bilhões!). Na casa de número 48 (dois terços do total) o número de grãos pularia para 140.737.488.355.328 (trilhões!). Na última casa, se assumirmos que cada 100 grãos de trigo formam 1 grama de peso, teremos algo como 92 trilhões de toneladas de trigo. E ainda faltaria somar os grãos de todas as casas anteriores. Que tal? Isso é progressão geométrica. Para obter diretamente o resultado basta elevar o número 2 (obtido na segunda casa do tabuleiro) à sexagésima terceira potência. Simples, não é? E isso me leva a outro exemplo semelhante: imagine uma folha de papel sulfite. Um pacote de 500 folhas mede, mais ou menos, 5 centímetros de espessura, o que significa que cada folha tem cerca de 0,01 centímetro (um centésimo de centímetro, ou um décimo de milímetro). Agora imagine dobrar essa folha ao meio. Teremos a espessura de duas folhas, ou 0,02 centímetro. Se dobrarmos novamente ao meio, será a espessura de 4 folhas, ou 0,04 centímetro. E assim por diante. E se dobrarmos 20 vezes a folha original? Então teremos algo como 524.288 folhas de espessura, representando 52,4288 metros, o que corresponde a um prédio de cerca de 17 andares, ou então quase 1.050 pacotes de 500 folhas de sulfite empilhados. Matemática pura. Mas, como sempre, um pouco danada de entender, assim como a nossa língua. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3157029319214431736?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3157029319214431736/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-33.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3157029319214431736'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3157029319214431736'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-33.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 33'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-5388844460366655002</id><published>2009-05-14T19:37:00.000-07:00</published><updated>2009-05-14T19:41:18.420-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 32</title><content type='html'>Talvez pela minha especialização em Finanças (após a graduação em Administração de Empresas), eu tenha uma certa queda pelos números. O que não deixa de ser um pouco contraditório, quando reafirmo continuamente minha paixão pelas letras – o que já foi, imagino, amplamente destacado nessa crônica semanal. Mas gosto dos números. E às vezes tenho certeza que chego muito perto dos sintomas do TOC (o famoso transtorno obsessivo compulsivo), quando desando a fazer contas das mais estapafúrdias. Não consigo evitar fazer conta, por exemplo, quando leio alguma coisa a respeito de alguém que já morreu, e aí vejo mencionado o ano de nascimento e o ano de morte do fulano (ou da fulana). Pronto: quantos anos ele (ou ela) viveu? Ou então olhar distraidamente para a placa de um veículo e então somar os números, como em numerologia, até sobrar apenas um dígito.  A placa é, por exemplo, 9427. 9 mais 4 mais 2 mais 7 é igual a 22. 2 mais 2 é igual a 4. Pronto. Só isso. Faço a conta só pelo prazer de fazer a conta e chegar a um resultado qualquer que, no fim das contas (literalmente – perdoe o trocadilho), não significa nada para mim. Tenho o hábito também de marcar o tempo quando dirijo, seja em estradas, ou mesmo em trajetos pela cidade (de casa para o trabalho, por exemplo). Cheguei até a montar um pequeno conjunto de aulas de matemática, que ministrei (tacanhamente) para o pessoal da Corretora de Seguros Marraf. Para tanto, me fiei em parte nos conhecimentos que ainda mantinha, aliando a um pouco de pesquisa que fiz para recordar outro tanto de informações importantes. Na época li o livro “O último teorema de Fermat”, escrito por Simon Singh (tradução de Jorge Luiz Calife, Editora Record), que serviu de base para que eu elaborasse o que chamei (sem modéstia) de “aula magna” (uma aula prévia, inicial, traçando um panorama do que viria pela frente). Antes de começar essa primeira aula anotei a seguinte frase no flip chart: “Tudo é número”. Isso foi para chamar a atenção dos “alunos”, para que eu explicasse a importância dos números, voltando no tempo até Pitágoras, a quem é atribuída a autoria dessa frase (século VI a.C.). Entre outras (muitas) coisas, é de Pitágoras a idéia original sobre os números perfeitos, dos excessivos e dos deficientes. O número perfeito é aquele que é resultado da soma dos seus divisores. O número 6, por exemplo. Seus divisores são 1, 2 e 3. Somando 1 + 2 + 3, temos como resultado o próprio número 6. O 12 é excessivo (a soma dos seus divisores resulta em 16, maior do que ele próprio). Já o 10 é deficiente (a soma dos seus divisores resulta em 8, menor do que ele). À primeira vista isso tudo pode soar um pouco fantasioso. Afinal, onde está a ligação com a parte prática das nossas vidas? Bom, conceitos como esse formam a base da pirâmide do conhecimento. Sem eles não haveria como erigir o que está por cima. E, mesmo sem saber, os números estão incrustados em tudo o que nos cerca. Voltando ao número 6: a bíblia não diz que Deus fez o mundo em 6 dias e no sétimo descansou? O próximo número perfeito, depois do 6, é o 28. Pois bem, os antigos já tinham notado que a lua orbita ao redor do planeta terra a cada 28 dias. E assim por diante. Quem se lembra do número π (pi)? Esse número foi derivado, originalmente, da geometria dos círculos (a proporção entre a circunferência de um círculo e seu diâmetro), mas ele pode ser encontrado na natureza. Um professor (e geólogo) da Universidade de Cambridge calculou a relação entre o comprimento real de um rio (medindo-o por sua extensão natural, obedecendo ao seu traçado irregular) e o comprimento em linha reta, desde sua nascente até a sua foz. A proporção entre o comprimento real e a linha reta é aproximadamente o do número π, ou seja, cerca de 3,1416. E na música? Se pegarmos uma linha estendida e tensa (como a corda de um violão), e a tocarmos, ela irá vibrar e emitir um som, que pode ser uma nota musical. Se segurarmos essa linha exatamente no meio, separando 50% para cada lado, e fizermos vibrar um desses lados, teremos o mesmo som original, só que uma oitava acima. E por aí vai. Mas voltando ao livro que citei aqui: o subtítulo é “A história do enigma que confundiu as maiores mentes do mundo durante 358 anos”. Que tal? No ano de 1.637 o matemático francês Pierre de Fermat fez uma anotação em um livro de outro matemático, Diofante (chamado Aritmética), sobre um teorema que ele (Fermat) estabelecera. Sua anotação dizia simplesmente: “Eu descobri uma demonstração maravilhosa, mas a margem deste papel é muito estreita para contê-la”. A grande questão era provar matematicamente que o teorema era perfeito. E Fermat morreu antes de demonstrar se era perfeito ou não. E isso só foi esclarecido 358 anos depois, por um matemático inglês, Andrew Wiles, então professor de Princeton. O livro é muito interessante, mas é preciso um interesse razoável por matemática para poder desbravá-lo por inteiro. Não há como forçar a própria natureza. Cada um no seu quadrado! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-5388844460366655002?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/5388844460366655002/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-32.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5388844460366655002'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5388844460366655002'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-32.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 32'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8658242244434612516</id><published>2009-05-07T19:38:00.000-07:00</published><updated>2009-05-07T19:44:24.900-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='silêncio'/><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 31</title><content type='html'>Nossa língua é realmente danada. É o que eu pensava ao ver a efeméride de hoje. Você sabe o que é efeméride? Em Astrologia significa uma tabela que fornece as coordenadas que definem a posição de um astro. Algo como latitude e longitude, só que no espaço sideral. Mas também significa uma comemoração de um fato auspicioso. Auspicioso? Aí já significa o que promete para o bem, algo de bom augúrio. Augúrio? Um prognóstico (menos mal), ou um presságio. E presságio pode ser uma previsão, um pressentimento, um fato ou sinal que prenuncia o futuro. Mas chega de dicionário. Qual o fato auspicioso que comemoramos hoje? O Dia Nacional do Silêncio. O que pode significar, dependendo do ponto de vista, que todos os outros dias do ano são dias do barulho, já que só esse é do silêncio. Mas acho que barulho não é uma coisa, digamos assim, comemorável. E por outro lado, não houve um certo barulho para divulgar esse tal Dia Nacional do Silêncio, o que acabaria sendo indispensável. Nenhum estardalhaço a esse respeito. Ninguém, que eu saiba, se calou, nem que fosse por alguns instantes, apenas para dar sua contribuição. Não houve nem um minuto de silêncio, como nas partidas de futebol (o que, aliás, é largamente desprezado pelo público dos jogos, que não está nem aí para os motivos desse silêncio prévio; aliás, o que se poderia esperar de quem nem respeita os hinos nacionais – tanto o nosso quanto os dos outros países? Mas isso já é outra história). Na internet, junto com a notícia do Dia Nacional do Silêncio havia uma pesquisa online, perguntando para os internautas se consideravam que falavam mais do que deveriam. Respondi discretamente que sim, e olhei o resultado apurado até aquele momento: dois terços responderam que sim, falam mais do que devem. Grande mea culpa, essa aí. Achei que nem todos se considerariam tagarelas. Sempre brinquei que, na minha família, quando conversamos, um fica na expectativa de que o outro perca o fôlego, para então poder começar a falar. Porque todos falamos demais, nos excedemos. Mas não sei se isso é definitivamente bom ou mau. Acho que depende das circunstâncias. Por exemplo: nos primeiros anos de escola eu conseguia me sobressair nas notas, mas nunca em comportamento. Minha mãe, ao participar dos encontros com os professores, tinha sempre que ouvir que eu era um bom aluno, mas falava demais. De lá para cá as coisas não mudaram muito. Pelo menos não de forma radical. Ainda preciso torcer para que minha irmãzinha perca o fôlego, para que eu possa finalmente participar da conversa. E aí entra a vantagem de escrever: falamos sem que nos interrompam. Só que de uma forma mais silenciosa, sem perturbações auditivas. Paradoxalmente, um escritor é um sujeito (ou, falando de forma politicamente correta: um/a escritor/a é um/a sujeito/a) que, apesar de trabalhar em silêncio (em geral, de maneira solitária e isolada dos demais), produz uma forma de barulho, o qual poderíamos chamar de virtual, palavra que está bem na moda. Eu ia falar “em voga”, mas acho que esse é um termo que não está “em voga”. E falando em escritor: estou lendo “Crime e Castigo”, do Dostoievski. E aí contei para a Fatima uma curiosidade: no livro que escrevi, o personagem principal cita uma passagem de “Crime e Castigo”, um livro que eu não tinha lido até hoje. Ele, o personagem que inventei, cita também a “Montanha mágica”, de Thomas Mann, que eu também não li. Enfim, apenas uma curiosidade. E notei que “Crime e castigo” é de 1.866, algo como 143 anos atrás. Um tempo sem telefones, automóveis, aparelhos de som, rádio, aviões, e toda essa parafernália que nos cerca hoje, e que produz uma quantidade de barulho potencialmente estressante. Por isso me sinto tão bem quando vou nos finais de semana para Jacareí. Além do contato com a natureza, a visão relaxante de árvores, plantas, pássaros e, é claro, da represa, também há a questão fundamental do silêncio. Poder descansar os ouvidos (o otorrinolaringologista do Hospital Cema me disse que hoje tudo é orelha: tanto a parte externa, quanto o órgão de audição propriamente dito, mas ainda não me acostumei com a idéia), e relaxar, escutando apenas o barulho dos grilos e dos pássaros. Donde concluo sobre a importância de curtirmos o silêncio. Ou, como na música cantada pelo Paul Simon: the sound of silence. O som do silêncio. Ora, e não é que o tal Dia Nacional do Silêncio é realmente importante? Eu acho que sim. Pena que seja muito difícil comemorá-lo todos juntos, em um único dia. Fica então a sugestão: vamos pensar um pouco no silêncio, nos benefícios que podemos obter com a ausência do barulho. Vamos dar uma merecida trégua para os nossos pobres ouvidos. Nem que seja por um dia. Nos falamos (baixinho!).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8658242244434612516?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8658242244434612516/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-31.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8658242244434612516'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8658242244434612516'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/05/artigo-indefinido-ano-1-n-31.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 31'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-2995475652574526799</id><published>2009-04-30T18:31:00.000-07:00</published><updated>2009-05-11T12:12:01.099-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 30</title><content type='html'>Em sua crônica no Estadão de hoje (30/04), Luis Fernando Veríssimo, fala do “sprit d’escalier”, que significa, nem mais nem menos, o “espírito da escada”. É aquela situação, conhecida pela esmagadora maioria das pessoas, que nos acomete quando somos confrontados por outros, que nos dizem coisas para as quais gostaríamos de estar muitíssimo bem preparados para dar uma resposta fabulosa e definitiva. Uma resposta para não deixar qualquer margem de dúvida, tanto por parte daquele a quem nos dirigimos, quanto para a platéia, caso haja. Sobretudo uma resposta espontânea, rápida e certeira. Mas aí faltam-nos as devidas palavras, o cérebro engasga, e só o que conseguimos dizer é: “Ah, é? Ah, é?” Porque, é claro, não estávamos preparados para aquela circunstância, por não termos um escritor ghost writer para nos assoprar (ou, mais modernamente, pôr num teleprompter invisível) a frase perfeita. De maneira que saímos do local dos fatos, e aí, descendo a escada para a rua é que nos vêm a bendita frase. Mas então o clima já se desfez, e os personagens já não estão mais nas marcas corretas para poderem ouvir a magnífica frase que finalmente nos ocorre. Por isso o “espírito da escada”. Você até pode retroceder na escada e voltar para dizer a sua resposta, mas quem vai estar interessado numa resposta tardia? Aliás, nessa mesma crônica o Veríssimo nos informa sobre um personagem de um antigo programa do Jô Soares, justamente aquele que formulava a tal frase de resposta nos momentos mais inadequados (uma semana depois, um mês depois, esses tempos), dizendo em alto e bom som algo que soava como um disparate para quem estava à sua volta. Personagem este, aliás, que foi criação do próprio Veríssimo. E na crônica ele deu um exemplo: o personagem de repente dispara algo como: “Só se sua mãe for junto!”. Isso dito assim dentro de um ônibus, ou caminhando pelas ruas, ou numa reunião com amigos, sem razão aparente. E aí o personagem contava que um sujeito o tinha mandado tomar banho, mas isso tendo ocorrido dias antes. Na hora o personagem só conseguira dizer o tal: “Ah, é? Ah, é?”. E só conseguia montar uma resposta à altura dias depois, mas tarde demais. Quem não passou por isso na vida? Difícil. Eu me reconheço nessa classe de pessoas - em gênero, número e grau - a imensa e silenciosa massa sem a presença de espírito infalível e veloz, que balbucia respostas insuficientes e inadequadas. Aqueles que falam a frase errada no momento certo, e que, resolutamente, falam a frase certa no momento errado. É fácil identificar um de nós: sempre estamos contando uma historieta na qual dizemos as frases mais fantásticas, para as pessoas certas, nos momentos certos, e seguimos o curso da vida, impávidos colossos, humildemente conscientes tanto da barbárie alheia, quanto da nossa soberba perspicácia. Ou seja, mentimos descaradamente. O chefe disse que temos um cérebro de ervilha? E, ainda por cima, fez isso em inglês? Você nem tem idéia do que respondemos! Quer dizer, você vai ter idéia, sim, mas da frase que bolamos três dias mais tarde, depois que nosso pea brain finalmente engrenou e pensou no que deveríamos ter dito de imediato, evitando a cara de paisagem e a ruga na testa. Alguns de nós, inclusive, desenvolvem um curioso comportamento, a bordo do qual passamos a ter respostas para todas as circunstância espinhosas. Vividas pelos outros, é claro. Para nós mesmos, aí já é outra história. Em geral, mal contada. Podíamos formar um grande grupo, para defendermos nossos interesses, para nos unirmos em torno da nossa inaptividade, para nos ampararmos e, principalmente, para nos consolarmos mutuamente. Nossa bandeira seria o desenho de uma escada voltada para uma porta de saída, com um imenso ponto de interrogação sobre ela, e o nosso lema estampado de uma ponta à outra: “Ah, é? Ah, é?”. Em nossas reuniões trocaríamos experiências, frases, respostas. Assim pelo menos teríamos alguma munição para situações futuras, desde que elas - Deus é grande! - venham a se repetir, para ensejar as tais respostas matadoras. Poderíamos ter uma senha secreta, para só permitir a entrada dos assemelhados. E ela seria, naturalmente, alguma coisa devidamente gaguejada. Isso seria importante para evitarmos a intrusão dos “outros”, aqueles seres, provavelmente oriundos de outro planeta, que sempre têm a resposta certa na ponta da língua. Imagine a cena: a reunião correndo solta, um desses espertinhos entra, olha em volta e desdenha: “Mas o que é isso? A reunião do BBA? Os babacas balbuciantes anônimos?” Isso seguido de uma sonora gargalhada. Provavelmente seria respondido por um grande coro nosso: “Ah, é? Ah, é?” Mas deixa estar, amanhã teremos a resposta certa. Nos aguarde. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-2995475652574526799?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/2995475652574526799/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-30.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2995475652574526799'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2995475652574526799'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-30.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 30'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3179048406639760717</id><published>2009-04-23T14:10:00.000-07:00</published><updated>2009-04-23T14:14:27.541-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 29</title><content type='html'>Hoje lembrei da peça de teatro “Macunaíma”, baseada no famoso livro homônimo do escritor Mário de Andrade (que tinha como subtítulo “o herói sem nenhum caráter”), dirigida pelo Antunes Filho, no velho teatro São Pedro, aqui de São Paulo. Sei que a peça foi um marco na cena teatral brasileira, mas me esqueci da maior parte da encenação. Um dos fragmentos que restou na minha memória é de uma cena em que vários atores, unidos em um bloco, como se formassem uma nau ou caravela (daquelas do descobrimento do Brasil), atravessavam o palco lateralmente, de frente para a platéia, em passinhos laterais, entoando baixinho a marchinha de Lamartine Babo “História do Brasil”, que dizia assim: “Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral! Foi seu Cabral! No dia vinte e um de abril, dois meses depois do carnaval!”. A marchinha é de 1934 e contém uma curiosidade histórica: porque Lamartine atribuiu o descobrimento do Brasil ao dia 21 de abril, e não ao dia 22, como hoje conhecemos? Ontem, pela manhã, no próprio dia 22 de abril, o âncora da rádio CBN Heródoto Barbeiro, ex-professor de história, disse que realmente havia uma controvérsia quanto ao dia do descobrimento, fato que eu desconhecia. Disse ele que em 21 de abril do ano de 1.500 os integrantes da expedição comandada por Pedro Álvares Cabral avistaram vestígios de terra firme, mas que só no dia seguinte é que puderam ver o Monte Pascoal, perto de Porto Seguro, no sul da Bahia, uma prova mais efetiva do descobrimento de novas terras. E aí, com o tempo, convencionou-se que a data comemorativa ficaria para o dia 22, definitivamente. Outra variação de data, mas dessa eu não tenho certeza, é a do nascimento do escritor russo Vladimir Nabokov. No site do Terra é informado que hoje completam 110 anos do nascimento do escritor, portanto em 23 de abril. Em outra pesquisa que fiz encontrei o dia 22. De qualquer forma, continuam sendo 110 anos, ontem ou hoje. E, mais importante do que isso, o que vale é a herança literária que esse notável escritor legou para as futuras gerações de leitores. É claro (para quem o conhece) que a primeira obra que ligamos à simples menção do seu nome é “Lolita”, uma intensa história que tem como pano de fundo uma relação de pedofilia. É a história do professor Humbert Humbert (não estranhem, a grafia do nome é assim mesma, duplicada), que se apaixona por uma menina de 12 anos de idade. Para se aproximar dela o professor casa-se com a mãe da menina. Através de um diário do professor a mãe descobre o sentimento que ele nutria pela menina, mas em seguida ela (a mãe) é atropelada e morre. A partir daí o professor passa a conviver somente com a menina, como enteada (numa relação socialmente aceita), em princípio numa casa e depois em uma longa viagem de carro. O livro foi concluído em 1.953 e, por seu conteúdo polêmico, provocou uma celeuma enorme nos meios literários. Dizem que o próprio escritor tentou destruir as originais do livro, no que foi impedido pela esposa. Sua publicação só ocorreu dois anos depois de concluído, em 1.955, mas primeiro na França, e não nos Estados Unidos, onde o escritor vivia. Vários países proibiram a publicação, e por muito tempo essa foi uma obra considerada escandalosa, de conteúdo imoral, e por isso foi rejeitada sistematicamente. Li esse livro há muito tempo atrás (e bota muito nisso!). E ainda hoje guardo a sensação incômoda que a leitura me provocou. Não é um livro fácil, e por isso mesmo é um livro importante no cenário cultural mundial, sendo um grande representante do que melhor se produziu no século XX. Dois termos de cunho sexual, comuns no nosso vocabulário, se originaram nesse livro: lolita e ninfeta. Ambos significando meninas, menores de idade, precoces ou sexualmente atraentes. Assim como “Macunaíma” ensejou posteriormente a feitura de peça de teatro e filme (este último dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, com o personagem principal primeiro sendo interpretado por Grande Otelo, no nascimento, e depois, adulto, por Paulo José), também “Lolita” acabou sendo filmada, primeiro pelas mãos do excelente diretor Stanley Kubrick (em 1.962) e mais tarde por Adrian Lyne (em 1.997), passando a fascinar, com sua história tensa e ambígua, outro contingente de pessoas pelo mundo afora. “Macunaíma” e “Lolita”. Mário de Andrade e Vladimir Nabokov. Autores, personagens e histórias que cruzam o tempo e permanecem, com a marca indelével da qualidade, integrando e influenciando o tecido cultural. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3179048406639760717?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3179048406639760717/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-29.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3179048406639760717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3179048406639760717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-29.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 29'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3794393323359410704</id><published>2009-04-16T14:05:00.000-07:00</published><updated>2009-04-17T05:45:36.072-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 28</title><content type='html'>É interessante o comportamento que temos diante de – vá lá! – nossos ídolos (não gosto do termo "ídolos", qualquer que seja a forma em que se apresente). E digo isso porque o Chico Buarque lançou recentemente seu mais novo livro (também não gosto do termo “último”, porque parece que não haverá outro depois): “Leite derramado”, pela editora Companhia das Letras. Pessoalmente, acho que ele está trilhando um caminho bastante difícil, mas muito louvável, ao se embrenhar em um campo da arte que não é o seu de origem. Aliás, hoje os comentaristas de futebol têm mais um termo típico: jogador-de-origem. Quando fazem um julgamento sobre determinado jogador, acrescentam esse novo dado: “Ah, fulano é centroavante de origem”. Com isso querem dizer que essa posição de jogar é aquela na qual o jogador é nato. Ele nasceu para aquilo. Ou seja, não é um jogador de outra posição, que foi adaptado para esta posição. E vice-versa (será que tem hífen?). Daí que o Chico Buarque acabou sendo perseguido por aqueles que não se conformam em vê-lo jogando em outra posição, que não seja a sua de origem. Incomoda a muitos um cantor que escreva. Ou, quem sabe, um escritor que cante. Mas isso é porque tudo se desloca da tal zona de conforto. É confortável ver o cantor fazendo o que se espera dela: cantar. Tanto para ele quanto para nós. Mas ele cisma em escrever. E isso acaba por incomodar. E aí alguns críticos falam mal da sua obra literária, principalmente porque estão imbuídos dessa aversão automática pela novidade. Isso mesmo depois de o cantor/escritor em questão já estar lançando seu quarto livro (desconsiderando peças teatrais e a novela “Fazendo Modelo”, que ele mesmo faz questão de não contar nessa nova fase). Já li críticas negativas começando pelo título. Não gostaram de “Leite derramado”. Pode realmente parecer prosaico, à luz da primeira leitura. Mas Chico é um mestre com as palavras, e isso, imagino, é algo difícil de contestar. Então o título deve ter algum significado que de início não nos salta aos olhos, mas que o teor da história vai revelar e justificar. Não vejo porque tanta gente (da crítica, é claro) torce o nariz para essa nova vertente artística. Na verdade nem como nova deve ser considerada. Chico sempre foi um sujeito profundamente literário. Sempre emaranhado nesse mundo das letras e das histórias. E eu vejo uma evolução nítida desde o primeiro livro. “Estorvo” eu mal consegui terminar de ler. Havia um incômodo (um estorvo! naturalmente) na forma e no conteúdo. Depois entendi melhor. Pulei “Benjamin” e li “Budapeste”. Este último é literatura de altíssimo nível. Daí me interessei por “Benjamin”, e gostei (mais do que o primeiro, mas menos do que o segundo). E o que dizer de antemão do novo livro? Talvez haja uma armadilha para o autor, porque alcançou um nível excelente no livro anterior, o que cria uma expectativa alta, tanto para ele quanto para nós, para o livro seguinte. E ele não teve medo de continuar. José Saramago, único prêmio Nobel de literatura em língua portuguesa, disse, a respeito de “Budapeste”: “Chico Buarque ousou muito, escreveu cruzando um abismo sobre um arame e chegou ao outro lado. Ao lado onde se encontram os trabalhos executados com maestria, a da linguagem, a da construção narrativa, a do simples fazer. Não creio enganar-me dizendo que algo novo aconteceu no Brasil com esse livro.” Que tal? Olhem só as primeiras palavras de “Leite Derramado”: “Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina.” É a história de um homem muito velho, que está prostrado em um leito de hospital. É uma saga familiar, descrevendo, em um livro curto (por se tratar de uma saga), de cerca de 200 páginas, a decadência social e econômica da família do velho, deixando entrever, como fundo de cena, a história do Brasil ao longo de duzentos anos. Não é pouca coisa. E a colcha de retalhos formada pelas memórias do velho, com lapsos temporais, com idas e vindas, desarticulada e embaralhada, vem a bordo da linguagem refinadamente simples desse escritor, que a cada dia que passa se revela mais fabuloso, deixando uma leva de leitores ávidos por sua produção. Pois que venha esse e muitos outros. Literatura, quando é boa, nunca é demais. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3794393323359410704?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3794393323359410704/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-28.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3794393323359410704'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3794393323359410704'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-28.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 28'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6834837637659812663</id><published>2009-04-09T12:30:00.001-07:00</published><updated>2009-04-09T12:33:13.323-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 27</title><content type='html'>Edward Norton Lorenz foi um matemático e meteorologista norte-americano. Morreu em 16 de abril de 2008, faltando pouco mais de um mês para completar 90 anos de idade. Na Wikipédia é citada uma frase dele, que seria parte da autobiografia que ele havia começado a redigir: “Desde criança, sempre tive interesse pelos números e fascínio pelas mudanças do clima”. Ele ficou mundialmente conhecido por trabalhar com informações matemáticas complexas na década de 60, nos laboratórios do MIT (Massachusetts Institute of Technology), integradas posteriormente à Teoria do Caos, naquilo que ficou denominado como Efeito Borboleta. Ele construiu um modelo matemático para a forma como o ar se move na atmosfera, e concluiu que pequenas alterações nos valores iniciais das variáveis levavam a resultados muito divergentes. Por exemplo: ao analisar determinadas formações de nuvens sobre o oceano, conjugando essa informação com outros fatores importantes como direção e força dos ventos, correntes marinhas, e etc, ele chegava à conclusão que poderia cair uma tempestade sobre determinada região dos Estados Unidos; no entanto, percebendo pequenas variações nos dados iniciais, ao aplicar essas alterações no modelo matemático, chegava-se à conclusão que poderia haver um tornado em outra região dos Estados Unidos. Resumindo: pequeninas variações de dados no início = grandes alterações no final. Esse tipo de ocorrência levou à elaboração do Efeito Borboleta, que pode ser interpretado de duas maneiras: a primeira, mais prosaica, diz que os gráficos resultantes da aplicação das variáveis e suas alterações e conseqüências, resultariam em um desenho semelhante à forma de uma borboleta; e a segunda, alegoricamente, demonstra que o bater das asas de uma borboleta em uma parte do mundo pode resultar em uma catástrofe natural em outra parte do mundo. Esta segunda maneira é bem mais interessante que a primeira, daí ser conhecida largamente, em detrimento da primeira. Como se diz por aí: se a lenda é mais interessante que a verdade, que se divulgue a lenda! Lembrei desse raciocínio de causa e efeito ao escutar, há dois dias atrás, uma crônica do Arnaldo Jabor na rádio CBN, pela manhã. Dizia ele sobre uma palestra proferida pelo José Miguel Wisnik - músico, compositor, ensaísta, professor da Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo. Nessa palestra Wisnik disse que não teríamos hoje um líder como Barak Obama, se antes não houvesse existido Vinícius de Moraes. E porque ele disse isso? Porque o poetinha escreveu uma peça de teatro chamada Orfeu da Conceição. O enredo da peça foi inspirado na mitologia grega, na história de Orfeu e Eurídice, mas ambientando a história para os tempos atuais (década de 50), em uma favela do Rio de Janeiro, durante o Carnaval. Todos os atores eram negros. E aí houve uma adaptação para o cinema, resultando no filme Orfeu Negro, de produção ítalo-franco-brasileira, premiado com a Palma de Ouro em Cannes, com o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro (o Oscar e o Globo de Ouro foram para a França, porque o diretor do filme era francês). Aliás, costumo maltratar alegremente no sax a música-tema “Manhã de Carnaval”, também denominada “Black Orpheu”. Mas o caso é que a mãe do Barak Obama, uma branca norte-americana, falava muito desse filme ao filho. Numa ocasião, ele já adolescente, tiveram a oportunidade de ver o filme juntos, e aí o atual presidente norte-americano ficou surpreso ao ver a mãe tão emocionada. E Wisnik, na sua palestra, juntou causa e efeito: depois daquele filme é que a mãe de Obama foi para o Havaí, onde se casou com um negro originário do Quênia. Portanto, se Vinícius não tivesse escrito a peça, não teria havido o filme; sem o filme, talvez a mãe de Obama não tivesse sido influenciada pela questão dos negros, e aí não teríamos hoje esse presidente. Talvez não caracterize exatamente um Efeito Borboleta, porque estamos falando de relacionamentos humanos, e não de variáveis e modelos matemáticos. Mas que é tentador sobrepor uma coisa à outra, isso lá é! Afinal de contas, não era à toa que Vinícius apregoava aos quatro ventos ser “o branco mais preto do Brasil”. Quem poderia imaginar que efeito tudo isso teria tantos anos depois? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6834837637659812663?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6834837637659812663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-27.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6834837637659812663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6834837637659812663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-27.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 27'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-2224053655637752628</id><published>2009-04-02T14:19:00.000-07:00</published><updated>2009-04-02T14:21:58.430-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 26</title><content type='html'>Eram quatro horas e vinte e cinco minutos da tarde e a reunião de que eu participara havia acabado. Saí para a calçada da Av. Paulista (&lt;em&gt;a mais paulista das avenidas&lt;/em&gt;) e observei por alguns instantes o intenso movimento daquela tarde de terça-feira. Em frente ao prédio onde eu estava um rapaz andava de um lado para o outro, distribuindo folhetos de uma loja da galeria do térreo. Às vezes ele caminhava até a esquina, onde bastaria atravessar a rua para chegar ao Parque Trianon, e voltava acompanhando o fluxo das pessoas, entregando seus folhetos de mão em mão. Ele conversava com algumas pessoas, brincava com outras, mexia com as meninas e ria alto. De vez em quando ele rodopiava, dava alguns curtos passos de dança, requebrava e aí continuava seu trabalho. Enquanto observava essa figura, pensei na questão do horário. Era tarde para voltar ao trabalho, em Diadema, mas era cedo para o próximo compromisso, que seria só às sete e vinte da noite, no Itaim Bibi. Então olhei para o imponente prédio do Masp, do outro lado da rua, e resolvi me conceder um tempo. Um cartaz na fachada anunciava a mostra "Olhar e ser visto", dentro da mostra do acervo permanente, no segundo piso. Fui até a bilheteria, localizada no nível da avenida, debaixo daquele imenso vão livre, e tive a primeira grata surpresa: às terças-feiras a entrada é livre. Peguei o elevador e fui ao segundo piso. Essa mostra é a quarta e última das mostras temáticas, da série MASP 60 anos. As obras expostas são criações que abrangem desde o século XVI aos dias de hoje, incluindo mestres da pintura como Rembrandt, Picasso, Ticiano, Van Gogh, Modigliani, Velázquez, Goya, Cézanne, Manet, Renoir e Portinari. É uma situação que beira o indescritível poder parar a menos de um metro de distância de uma pintura como "Rosa e Azul" de Renoir, e observar as duas meninas fazendo pose, a menor delas com um semblante entristecido, como se estivesse um pouco contrariada. Parece que ela está quase chorando, e é realmente impressionante perceber como o pintor conseguiu captar essa nuance delicada de expressão, principalmente se levarmos em consideração que a obra foi composta ao longo de várias sessões. Ou seja, essas meninas, então com seis e cinco anos de idade, não devem ter ficado imóveis o tempo todo, mantendo as feições inalteradas, para facilitar o trabalho do pintor. A obra é de 1881, retratando as irmãs Alice e Elizabeth, filhas de um banqueiro. De início chamava-se "As meninas Cahen D’Anvers", remetendo ao sobrenome da família, mas mais tarde acabou sendo conhecida mesmo com o título de "Rosa e Azul", as cores predominantes nos vestidos das duas meninas. A riqueza de detalhes, a preocupação com as minúcias, a perfeita integração das meninas com o ambiente, tudo se une para provocar um encanto que vai impregnar nosso olhar. Renoir, tão cansado estava após esse trabalho, que nem mesmo conseguiu imaginar se havia feito algo de bom ou de ruim. Parece que a própria família das meninas, que encomendou o quadro, também não gostou muito do resultado, tanto é que relegou-o à área dos aposentos dos empregados da casa. E, no entanto, hoje é um dos quadros mais famosos do mundo, parte do acervo permanente do MASP desde 1952. Continuando a peregrinação pela exposição, não resisti e acabei vendo todas as obras expostas no segundo piso (248, no total), abrangendo outros temas, como "Virtude e aparência a caminho do moderno", com obras de Rafael, Botticelli, Bellini, Tintoretto, El Greco e outros; "A natureza das coisas", com Picasso, Van Gogh, Matisse e Monet, além de brasileiros como Benedicto Calixto, Guignard, Carlos Prado e Almeida Júnior; e "A arte do mito", com Rafael, Picasso, Poussin e outros. Faltando quinze para as seis tomei o elevador para ir embora, mas aí o ascensorista perguntou se eu não iria ver a exposição Pirelli/Masp de fotografias, exposta no primeiro piso. Fui lá dar só uma olhada, mas cumpri a via sacra toda, percorrendo também todo o andar, só que um pouco mais rápido, porque o museu fechava às seis da tarde. E as fotos que eu vi são simplesmente impressionantes. Contendo desde figurinhas carimbadas como Bob Wolfenson e Vânia Toledo, até nomes que eu desconhecia por completo, como Nani Góis (de Sertanópolis/PR), a coleção é de uma beleza ímpar, traduzindo em imagens fantásticas situações do cotidiano. Há imagens sobre o (precário) atendimento médico na região Norte do país, ou flagrantes de índios, ou propagandas, como do carro Simca Chambord em frente ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, ou a Garota de Ipanema, Helô Pinheiro, sentada na praia, de costas para a câmera, num enquadramento perfeito em preto e branco, e por aí vai. Os imensos painéis contendo fotografias de Cubatão, com suas indústrias fumacentas, a estrada para a baixada santista, as paisagens quase inóspitas, em tons extremamente escuros, clicadas pelo Bob Wolfenson, são de tirar o fôlego. Para quem gosta de fotografias, como eu, é uma exposição imperdível. Saí de lá com ânimo renovado, certo que aquela dor nas costas, por ter ficado tanto tempo de pé, valia cada fisgada, ainda que sob intensos protestos da coluna torta. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-2224053655637752628?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/2224053655637752628/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-26.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2224053655637752628'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/2224053655637752628'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/04/artigo-indefinido-ano-1-n-26.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 26'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3896054476308246391</id><published>2009-03-26T14:02:00.000-07:00</published><updated>2009-03-26T14:03:37.947-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 25</title><content type='html'>Em um recente artigo publicado no Estadão, o escritor Luiz Fernando Veríssimo descreveu um verão que ficou impregnado na sua (dele) memória, curtido nos áureos tempos da sua (dele) juventude (ê língua, essa nossa! - aliás, ontem à noite vi na TV um pequeno quadro com o Professor Pasquale, sobre particularidades da implantação da nova ortografia; e um detalhe “bacana” é que a palavra “herói” continua acentuada, mas a palavra “heroica”, derivada da primeira, não. Entendeu? Nem eu.) Após descrever detalhadamente como havia sido aquele inesquecível verão, Veríssimo chegou à conclusão, no final do artigo, que a saudade melancólica que sentia não era do verão em si, mas sim da sua (dele) própria juventude, que estava no auge naquele verão. Lembro de ter lido, há muito tempo atrás (e bota tempo nisso!), um artigo, escrito não sei por quem, no qual era dito que ao aplaudirmos com mais ênfase uma determinada canção em um show, é sinal que estamos aplaudindo a nós mesmos. Estamos aplaudindo o que aquela canção representa para nós mesmos, lembrando do nosso passado, do tempo que aquela música representa dentro da nossa existência. A música sinaliza e demarca nosso tempo. Por isso as canções novas, desconhecidas pelo público, são sempre merecedoras de aplausos mais comedidos. Somos assim: até quando aplaudimos um artista que admiramos, cantando “aquela” famosa canção que de alguma forma marcou as nossas vidas, estamos aplaudindo a nós mesmos, ainda que de maneira indireta: o artista se derrete em mesuras exageradas, crente que é destinatário dos aplausos, mas no fim das contas tudo é um jogo de espelhos. Vemos nós mesmos refletidos na canção. Isso justifica também a quantidade de e-mails que recebemos sobre “os velhos bons tempos”. E tome falar saudosamente do tênis Conga, do refrigerante Grapette, do carro Gordini, do seriado “Perdidos no espaço”, e por aí vai.  Em um desses e-mails, que visava a analisar o DNA das pessoas (Data de Nascimento Antiga), o autor desandou a fazer uma análise curiosa: dizia ele que naqueles “bons tempos” ninguém era obrigado a usar cinto de segurança nos carros e que isso não redundava em problemas mais sérios nos acidentes automobilísticos (ele lembrou alegremente o fato de as crianças ficarem completamente soltas nos bancos dos carros); ou que então os produtos alimentícios não tinham data de validade, e que ninguém morria por causa disso. Ele só esqueceu de mencionar que a esbórnia daquele tempo implicava em mortes prematuras e evitáveis, ou que de lá para cá a expectativa de idade (longevidade) cresceu significativamente. E isso foi obra do acaso? O desconto que deve ser dado a essas declarações estapafúrdias é o da compreensão de que o autor não tem saudade daqueles tempos especificamente; ele tem saudade de si mesmo, do garoto descobrindo as novidades, de ter o mundo todo e a vida inteira pela frente. Ele tem saudade da falta de responsabilidade, das descobertas diárias, dos sonhos acalentados em gloriosos tempos em que nada havia para fazer (geralmente em contraponto direto com o tempo de hoje, no qual o autor provavelmente deve ser um adulto pai de família, sem tempo para si mesmo, ou pelo menos sem tempo para poder fazer novas descobertas e sonhar novas perspectivas). Acho que vou citar errado, mas penso que foi o Millôr Fernandes quem disse, ao ser perguntado sobre “seu tempo”: meu tempo é hoje. Hoje não é pior ou melhor do que ontem. Hoje também não é pior ou melhor do que amanhã. Hoje é outro tempo. Ao fazermos comparações, sempre teremos uma longa lista de cada lado da página: de um lado as coisas boas de hoje em relação à ontem, e de outro as coisas ruins de hoje em relação à ontem. Mas tudo se resume, no final, ao nosso olhar. E nosso olhar sempre estará carregado com as nossas experiências, com a nossa vivência, e por isso mesmo é completamente subjetivo. Na Corretora Marraf ouvi certa vez uma recepcionista falando dos velhos bons tempos, que, para ela, era a década de 80. E fiquei pasmo com aquilo. Tentei argumentar que muitos autores, analistas e críticos, denominam esse período justamente como a “década perdida”. Comparando com a efervescência das décadas de 50, 60 e – já num ritmo mais brando – 70, 80 foi uma década sem muitas novidades de peso. Mas 80 foi a década dela, da recepcionista da Marraf. Foi o tempo da juventude dela, das descobertas dela. Logo, como não poderiam ser importantes (para ela)? Aqueles eram os bons tempos para ela. E contra isso não há argumento que resista. Então temos esse aspecto fundamental da análise: comparação. Avaliamos tudo por comparação. Como naquela infame piadinha dos dois sujeitos conversando numa mesa de bar, quando um deles pergunta ao outro: E sua sogra, está bem? E o outro, direto ao ponto: Depende. Comparada com o quê? Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3896054476308246391?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3896054476308246391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-25.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3896054476308246391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3896054476308246391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-25.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 25'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-1952049901968927729</id><published>2009-03-19T14:05:00.000-07:00</published><updated>2009-03-20T04:54:46.785-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 24</title><content type='html'>No Artigo Indefinido nº 06, de 13/11/2009 (ainda postado no site do Terra), eu contei a história de um pequeno texto que elaborei para o Paulo Dionísio, o qual deveria fazer parte da cerimônia de conclusão de um curso de comunicação e oratória. Naquele texto eu tentei expressar o reverso do dito popular “uma imagem vale por mil palavras”, até chegar em alguma coisa como “uma palavra vale por mil imagens”. Se por um lado havia a intenção de provocar reflexões em cima de alguma coisa solidamente estabelecida ao longo do tempo, por outro também havia a idéia de puxar a sardinha para a minha brasa; ou seja, demonstrar, ainda que de maneira superficial, a importância das palavras no nosso imaginário. E isso me veio à mente na semana passada, por uma circunstância muito especial. Na quarta-feira, dia 11/03, o massoterapeuta (profissional que faz tratamentos através de massagens) Roberval Guedes narrou detalhadamente o dia em que ele perdeu definitivamente a visão. Não foi um acontecimento repentino, já que havia sido detectado o problema desde os sete anos de idade, e a perda definitiva foi aos vinte e cinco anos. Houve um aumento gradativo da perda, mas mesmo um pouco antes de quando ela finalmente ocorreu, ele ainda dispunha de visão suficiente para poder se locomover por si, sem o auxílio de outras pessoas. Claro que hoje, por seu espírito batalhador, por sua coragem, por seu destemor, Roberval segue a vida normalmente, de forma independente, contornando com um insuperável bom humor os obstáculos que a sua deficiência proporciona. A sua simples presença traz sempre uma energia contagiante, plena de alegria e de alto astral. A cada vez que ele irrompe no escritório, a bordo do seu inconfundível sorriso, o ambiente automaticamente fica mais feliz. Não é à toa que uma empresa convidou-o recentemente para dar uma palestra para seus funcionários, quando ele pode expor como faz para tocar a sua vida adiante, a despeito das limitações que a deficiência visual lhe impõe. Ou seja, ele realmente é um exemplo de perseverança e de iniciativa. E na quarta-feira da semana passada ele narrou, com simplicidade e de forma bem direta, como foram aqueles momentos que mudaram a sua vida. Foi em uma pequena cidade no interior de São Paulo, onde ele tinha ido visitar um parente e estava indo a pé para a rodoviária, para tomar o ônibus que o levaria de volta para casa. A tarde estava bem no final e o sol estava quase encostando na linha do horizonte, de frente para ele. Olhando para o sol, Roberval sentiu um incômodo, como se aquela luz o tivesse ofuscado temporariamente. Ele então olhou para o lado e viu um longo muro de uma escola, que havia sido pintado de branco. Aquela imagem do muro branco e o sol ofuscante no poente são as últimas imagens que Roberval traz na memória. Ele se lembra da dificuldade para chegar até a rodoviária e para retornar para casa. Lembra também que não ficou inteiramente cego naquele exato momento, mas que dali para frente as coisas se precipitaram, até o ponto em que ele se encontra hoje. Atualmente ele não consegue sequer enxergar o vulto das pessoas, distinguindo, quando muito, de que direção vem a luz, quando entra em um ambiente. Mas isso não o impede de trabalhar, de se divertir ou de estudar. Ontem, depois do expediente, pensei nas agruras das nossas vidas, comparando com aquelas que Roberval encontra no seu cotidiano, enquanto gravava para ele algumas expressões idiomáticas em inglês, acrescentando mais algumas palavras para ajudar a enriquecer seu vocabulário naquela língua. Há um tempo atrás eu já havia gravado para ele os verbos irregulares da língua inglesa, detalhando as grafias, explicando seus significados em português e informando a declinação para o tempo passado. Isso porque hoje ele estuda inglês, junto com os funcionários daquela mesma empresa que o convidou para a palestra. E enquanto eu falava para o pequeno gravador japonês que ele me trouxe, sozinho no escritório, envolvido pelo silêncio do fim do dia, fiquei imaginando a cena gravada na mente do Roberval, das últimas imagens registradas: a rua da pequena cidade do interior, o sol poente e o muro branco. A palavra narrada por ele formou um cenário na minha cabeça, a partir do meu próprio arquivo de imagens. E, para mim, essa cena que não presenciei ficará sempre como uma cena marcante, como em um final de filme, naquele momento em que olhamos para a tela e vemos o principal personagem caminhando resoluto, de encontro ao seu futuro. Uma história aconteceu até ali e uma outra história, que desconhecemos, acontecerá dali para frente. Assim foi com o Roberval: até ali, aos vinte e cinco anos, sua vida foi de um jeito, dali por diante outra história começou. A diferença é que ao fim do filme, satisfeitos (ou não) com a história contada, a luz se acende e voltamos para o nosso cotidiano, velho conhecido; para o Roberval, ao contrário, depois daquela cena as luzes se apagaram e ele entrou então para uma nova e desconhecida vida. E la nave va. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-1952049901968927729?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/1952049901968927729/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-24.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/1952049901968927729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/1952049901968927729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-24.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 24'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-1615684882098531195</id><published>2009-03-12T13:54:00.000-07:00</published><updated>2009-03-12T13:56:52.079-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 23</title><content type='html'>“Neste mundo materialista a que pertenço, não há homens honestos nem escroques – há somente vitoriosos e derrotados”. Essa lapidar frase de efeito foi dita pelo português Artur Virgílio Alves Reis há pelo menos oitenta anos atrás.  Conforme matéria divulgada no encarte “Eu &amp;amp; Fim de semana” do Jornal Valor Econômico de 30/01/2009, Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil, fez a organização e o prefácio do livro “O homem que roubou Portugal”, de autoria do americano Murray Teigh Bloom (Editora Zahar). Esse livro trata da história de Alves Reis e de uma façanha histórica, que acabou gerando, por vias transversas, um clássico em matéria de direito monetário, estabelecendo jurisprudência sobre a natureza fiduciária do dinheiro. Fiduciário, conforme definição do dicionário, significa aquilo que depende de confiança, que revela confiança. Circulação fiduciária: circulação de papel moeda. Moeda fiduciária: papel-moeda. Ou seja, lidamos com o dinheiro (o papel-moeda) no nosso dia a dia, confiando que ele representa fielmente o valor que traz impresso. Quando ocorre a perda da confiança na moeda, que se desvaloriza e se deteriora, há o processo inflacionário.  Mas voltemos ao Alves Reis: em 1925, aos 27 anos de idade, forjando documentos e falsificando assinaturas, ele conseguiu que a casa inglesa Waterlow &amp;amp; Sons, que então era a empresa responsável pela impressão do papel moeda português, emitisse 200 mil notas de 500 escudos, para uso dele próprio. Esse montante representava algo como 2,6% do PIB português. Curioso é que a quantidade dessas notas ilegítimas (que tinham a efígie do navegador Vasco da Gama) era quase tão grande quanto as legítimas de mesmo valor, as quais, aliás, começaram a circular mais ou menos um ano antes. O dinheiro era tanto que, para tentar “lavar” a operação, ele chegou até a criar um banco próprio, e ainda tentou se tornar acionista majoritário do Banco de Portugal (banco estatal, mas parcialmente privado; este sim o responsável original pelas ordens de emissão de dinheiro), através da compra de ações (chegou a deter 10.000 ações, quando seriam necessárias pelo menos 45.000 para alcançar seu intento). Ocorre que era prática muito comum a emissão de dinheiro, por ordem do Banco de Portugal, para atender as necessidades fiscais do governo de Portugal (que já naquela época praticava o fatídico desmando de gastar mais do que arrecadava), estabelecendo um método inflacionário. Além disso, o Banco de Portugal nem sempre fazia o devido registro desses aumentos de volume da massa de papel moeda no país, o que acabou gerando um panorama propício para o golpe dado por Alves Reis. Para complicar, o golpista fez com que se soubesse que essas notas seriam usadas exclusivamente em Angola, então colônia portuguesa, por isso elas poderiam ser impressas com a mesma numeração de notas já impressas anteriormente. Essa questão da numeração duplicada acabou sendo uma das bases para terem detectado o golpe, já que os dinheiros legítimos e ilegítimos acabaram por circular na mesma praça (após uma denúncia do jornal O Século, o Banco de Portugal investigou depósitos suspeitos em notas de 500 escudos em uma casa de câmbio, encontrando então cédulas duplicadas; os bancos passaram a ter uma determinação para guardar as notas em ordem pelo número de série, o que resultou no aparecimento de mais notas duplicadas). Claro que Alves Reis não agiu solitariamente (dizem que a parte dele representava 25% do total amealhado), e um detalhe importante é que entre seus “sócios” estava José Bandeira, irmão de Antonio Bandeira, então embaixador português em Haia (o que servia para se utilizar de vantagens diplomáticas, para poder transitar com os valores). Outro detalhe, este irônico, é que o principal executivo do Banco de Portugal, naquela época denominado como governador do banco, chamava-se Inocêncio Camacho Rodrigues (este, na confusão, chegou a ser preso, mas libertado em seguida). A tramóia de Alves Reis foi descoberta, ele foi preso e, julgado, foi condenado a 20 anos de prisão (morreu pobre aos 57 anos de idade). Mas o interessante é que o Banco de Portugal processou a Waterlow &amp;amp; Sons por perdas e danos nos tribunais londrinos e, depois de uma longa batalha jurídica, conseguiu ser indenizado pelo valor de face do papel moeda indevidamente impresso, e não pelo custo gráfico que esse trabalho representou. Após a perda da ação, a casa Waterlow &amp;amp; Sons procedeu a indenização e acabou falindo. O escudo, depois dessa ação criminosa, sofreu perturbações cambiais sérias e perdeu muito da sua credibilidade. A partir de 07/12/1925 as notas de 500 escudos começaram a ser retiradas de circulação, tanto as ilegítimas quanto as legítimas. Em menos de um mês saíram de circulação cerca de 115.000 notas. Mais tarde, em 1932, o Banco de Portugal determinou que as notas de 500 escudos fossem abonadas, sendo legítimas ou não, o que provocou um grande prejuízo para o Banco Central. Essa fraude gerou uma severa crise de confiança da população portuguesa em relação aos poderes públicos. Mesmo levando em consideração que houve uma conjugação de diversos fatores, entende-se que a crise gerada pela fraude foi um dos principais fatores que levaram à revolução portuguesa de 28/05/1926, que derrubou o então presidente da república, Bernardino Machado, e que deu origem à ditadura do Estado Novo de Salazar, a partir de 1932, a qual durou até a Revolução dos Cravos em 1974. Oitenta anos depois da fraude, em 27/10/2005, houve um leilão de uma das notas ilegítimas de Alves dos Reis. O valor estimado era de 6.500 euros. E assim segue a vida. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-1615684882098531195?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/1615684882098531195/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-23.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/1615684882098531195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/1615684882098531195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-23.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 23'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6198418745323669072</id><published>2009-03-05T19:07:00.001-08:00</published><updated>2009-03-13T12:36:15.257-07:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 22</title><content type='html'>Num dia modorrento qualquer, o olhar pregado na tela do computador, fisgadas de dor – como pequenos e chatíssimos choques elétricos - percorrendo o braço num claro prenúncio de excesso de uso do mouse, uma vaga vontade de estar numa ilha do Caribe acompanhado pela Juliana Alves vestida de rainha da bateria, quando tudo é interrompido pelo celular que toca insistentemente. Um leve arrependimento toca o coração: porque diabos coloquei esse toque infantilóide no celular? Nem Deus sabe! Aí olho para o pequeno visor e avisto aquele primor de mensagem: restrito. Quem está ligando não quer ser identificado. Atendo com uma certa presteza, mais para fazer parar a musiquinha (“olha o passo do elefantinho”), do que propriamente pela ânsia de saber quem está ligando. E aí um novo desânimo: a musiquinha que indica ligação a cobrar. Quem será o verme que compôs essa irritante trilha sonora dos miseráveis? Espero sinceramente que o autor tenha sido pago regiamente com um cheque sem fundo, ou sustado. Ou, como diria muita gente que conheço: cheque assustado. O que não é de todo errado, tendo em vista o estado terminal de algumas contas correntes por aí. O cheque é apresentado no caixa para ser descontado, o funcionário do banco consulta o saldo e pimba! Leva um susto, e o cheque leva a fama. Taí a origem do cheque assustado. Surge a figura gloriosa do cheque indescontável. Enquanto a musiquinha infame estridula (que tal?) no ouvido, lembro da letra que algum gaiato bolou: tem pobre ligando pra mim. É irresistível tentar acompanhar a canção cantando baixinho: tem-pobre-ligando-pra-mim. Mas a moça da gravação logo corta meu barato musical e me instrui secamente sobre como proceder, e ato contínuo ouço a voz de uma outra moça, essa desesperada, que apenas geme: “Pai?” Nesse momento há um segundo de indecisão sobre como me comportar. Será que a Glorinha Khalil já mencionou alguma coisa a esse respeito no Fantástico? Qual será a regra de etiqueta para uma circunstância como essa? Traje esporte fino? Devemos falar com que tipo de entonação de voz? Qual deve ser a qualidade do nosso vocabulário? A primeira reação, instintiva mesmo, é a de deixar aflorar o traficante do morro carioca que habita em algum lugar obscuro da nossa cabeça, e dizer direta e francamente: “E aí, mina? Tá me tirando? Pra cima de moá? Eu lá botei mulher fêmea no mundo pra ficar me arranjando enrosco?” Mas, como diria aquela elegante canção, devidamente esgoelada pelo Nelson Ned, “Mas tudo passa, tudo paaaaassarááááááá”, e a vontade logo passa e me concentro na situação complicada. Primeiro: como a meliante sabe que sou homem, se nem sequer eu disse um mísero alô? Segundo, como avisar para ela, de uma maneira educada e gentil, que não tenho filha? Há uma tentação infame de levar a conversa adiante, fingindo ser um pai prestimoso, aflito com a situação da filha, seja lá qual for essa situação. Só para ver até aonde a coisa toda vai. Mas aí lembro que quem está pagando pela maldita ligação sou eu mesmo, e aí quem é o trouxa mesmo? Além disso, é difícil driblar a vontade de bater o recorde (pelo menos nacional) de dizer o maior número possível de descalabros no menor espaço de tempo. Então, sem mugir nem piar, desligo o telefone celular. E imagino a teatralidade por trás dessas toscas ações, que tanto assustam gente inocente. Aliás, não só assustam como vez ou outra devem render uns bons trocados, afinal a crise é grande, a concorrência é brava e o saldo na conta corrente tá pela hora da morte. Dizem que essas ligações vêm até de dentro de presídios, principalmente cariocas. Presídios ditos como de (in)segurança máxima. E assim ficamos, vulneráveis no acesso por celulares, ou por hackers que vivem tentando nos pegar de surpresa (semana passada recebi uma dezena de e-mails enviados pela Sra. Camila Costa, que comunicava alegremente seu casamento, e disponibilizava um inocente link para maiores informações; fiquei lisonjeado com a lembrança, mas deletei sumariamente todos os e-mails). Os vírus já infestam iPods, iPhones, computadores, periféricos, e por aí vai. É como uma brincadeira de esconde-esconde tecnológica. Cada vez mais nos cercamos de gadgets dos mais variados formatos e funções, repletos de proteções e bloqueios. E cada vez mais “eles” nos alcançam, nos assustando com a desfaçatez de uma criminosa criatividade. Sinto como se eu estivesse enfiado dentro de um armário, meio sufocado no meio das roupas, no escuro total, e aí de repente a porta se abre num solavanco, alguém grita no meu ouvido: “Achei”, e corre para o pique para confirmar, triunfante: “cidadão indefeso escondido no guarda-roupa do quarto da mãe, um dois três!”. E lá vai ele em busca do próximo otário. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6198418745323669072?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6198418745323669072/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-22.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6198418745323669072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6198418745323669072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/03/artigo-indefinido-ano-1-n-22.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 22'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-8567541402643082398</id><published>2009-02-26T17:54:00.001-08:00</published><updated>2009-02-26T18:06:26.024-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 21</title><content type='html'>Sábado de sol em São Paulo. No Parque do Ibirapuera há uma multidão que se esparrama pelas alamedas e pelos gramados, de patins e de skate sob a marquise, de bicicleta ou a pé pelo asfalto, protegidos e desprotegidos, vestidos e desvestidos, fazendo ginástica ou simplesmente caminhando, perdidos e achados, paulistanos de todas as origens, raças, credos, cores e sexos (porque, claro, há muitos!). Depois de trotar por exatos quarenta minutos, vestido a caráter (camiseta regata de tecido que “respira”, shorts curto e folgado, com aberturas nas laterais, tênis – caro – apropriado para corridas, relógio digital com diversos recursos de controle de tempo, etc), um rapaz, qualquer coisa entre vinte e cinco e trinta anos, magro, um princípio de calvície se revelando após uma testa comprida, se aproxima de um dos totens que asperge um vapor de água fresquinho (para atenuar o calor) e espera, um pouco impacientemente, pela sua vez de se refrescar. Depois, caminha lentamente por um gramado e se aproxima de uma sombra de árvore, onde próximo estão algumas instalações para ginástica. Maquinalmente ele passa a fazer alongamento, sem prestar atenção no intenso movimento que o rodeia. Quando encerra a série de alongamentos dá uma olhada no relógio, para conferir os tempos registrados, e senta na sombra da árvore, próximo de uma moça, de idade semelhante à sua. Ela lê um livro de capa branca, de vez em quando empurrando para cima, com o dedo indicador, os óculos que teimam em deslizar pelo nariz. Ao seu lado, sobre a toalha de praia (vivamente colorida) em que ela está sentada, há uma caixa de lenços de papel, da qual ela se serve seguidas vezes, assoando furiosamente o nariz. Ela está vestida bem à vontade, de bermuda, camiseta regata e chinelos, sem nada que evidencie esportividade. Em meio à balbúrdia reinante, de repente ela levanta o rosto, olha para frente e pergunta, como quê para ninguém:&lt;br /&gt;- O que é charneca?&lt;br /&gt;- Acho que é um tipo de pântano – responde o rapaz, sem que um sequer tenha olhado para o outro – Meu tempo não foi bom – ele acrescenta – na segunda volta havia um bando de bananas que atrapalhou um pouco.&lt;br /&gt;- Gozado. Charneca me lembra paisagem de livro inglês. Livros sobre crimes indecifráveis, de detetives como Sherlock Holmes. O fog sobre a charneca, um cão uivando, uma noite fria e úmida...&lt;br /&gt;- Gozado – ele repete, sem querer – esses tênis deveriam ter outro tipo de solado, porque achei muito macio. São leves, não dá para negar. Mas acho que amortecem muito o impacto das passadas. Depois de um tempo dá canseira, como correr sobre areia fofa.&lt;br /&gt;- Como se chamava o autor desses livros de detetive? Conan Doyle? Tinha aquele Ian Flemming. Ou eu estou confundindo? O inspetor Poirot eu lembro que era da Agatha Crhistie. Mas ela escreveu também sobre uma velhinha que desvendava mistérios. Como era o nome da velhinha?&lt;br /&gt;- Na segunda volta, quando aqueles bananas me atrapalharam, devo ter perdido bem uns dois minutos no tempo total. Não gosto quando isso acontece. Ibirapuera de sábado me enche o saco!&lt;br /&gt;- Fico sempre pensando como funciona a cabeça desses autores de livros de suspense. Será que eles fazem um planejamento prévio, um esqueleto de roteiro, e depois só alinhavam a história? Não pode ser que eles escrevam, deixando simplesmente a história fluir, e aí vão arrumando à medida que as coisas acontecem. Acho que não.&lt;br /&gt;- Na segunda-feira, sem falta, eu vou na loja reclamar desses tênis. Eu tenho certeza que falei praquele vendedor narigudo que queria um tênis com solado firme. E ele me vende esse à base de gelatina. Quero só ver se ele arranjar encrenca! (ele imita os trejeitos do vendedor narigudo) Ah, mas o senhor já usou o tênis! Como é que eu iria saber desse solado de merda se não usasse, digo eu na cara dele! Diz pra mim, diz!&lt;br /&gt;- Se o escritor de suspense realmente monta esse roteiro prévio, então depois ele deve fazer uma desconstrução, escondendo alguns fatos e expondo outros, de maneira a deixar o leitor confuso, sem descobrir o fio da meada, até chegar ao fim apoteótico. Isso é mesmo genial.&lt;br /&gt;- Preciso falar com o Reinaldo. Mas ele só vai na academia de terça-feira. E no primeiro horário ele vai treinar aquele gordinho metido, que fica de óculos escuros até no vestiário. Vou ter que esperar uns quarenta minutos, pelo menos. É de matar!&lt;br /&gt;- Acho que nasce com a pessoa. Quer dizer, esse dom de montar e desmontar histórias complexas. Só pode ser. Um dom! De Deus!&lt;br /&gt;- Descobriu o que é charneca? É melhor parar de conversar, porque o Júnior está na casa da sua mãe, e a megera já deve ter corrompido ele pro resto da vida.&lt;br /&gt;- Minha mãe, megera! Nem vou falar da sua pra gente não se atrasar. Já acabou seus exercícios? Então simbora daqui.&lt;br /&gt;Nos falamos?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-8567541402643082398?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/8567541402643082398/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-21.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8567541402643082398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/8567541402643082398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-21.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 21'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-7085125627060715576</id><published>2009-02-19T18:07:00.001-08:00</published><updated>2009-02-20T05:58:44.176-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 20</title><content type='html'>Na semana passada eu comentei aqui sobre a implantação, na cidade de São Paulo, do plano de inspeção veicular. Volto a frisar que se trata de uma iniciativa das mais louváveis, afinal o planeta está em um caminho perigoso, já há muito tempo sendo trilhado, de aumento desenfreado de fatores negativos para o aquecimento global, e para a degradação galopante do meio ambiente. Iniciativas globais, como o Protocolo de Kyoto, acabaram ficando como que em banho-maria, principalmente pelo comportamento dos Estados Unidos sob o comando do “já-vai-tarde” Sr. Bush. Falei a respeito da contratação da iniciativa privada para levar a cabo esse empreendimento (da inspeção veicular), e os obscuros caminhos que daí podem ter advindo, e também da questão do ano de fabricação dos veículos a serem inspecionados. Na matéria da Vejinha é perguntado se, então, os carros mais velhinhos (aqueles fabricados antes de 2003) poderão poluir à vontade. Aí vem outra explicação realmente surrealista. É dito que a Secretaria do Meio Ambiente “mantém uma van circulando pela cidade, equipada com máquina fotográfica, sensores infravermelhos e leitores de raios ultravioleta que detectam emissões de gases poluentes”. Imagino que ao volante dessa van ultra-equipada deve estar, no mínimo, o Batman, que não deve esquecer de portar também seu famoso cinto de utilidades, para combinar com a parafernália instrumental do distinto veículo. Aliás, acho que seria bem apropriado se essa van circulasse tendo como fundo sonoro a trilha do filme “Caça Fantasmas”, para combinar com o, digamos, espírito da coisa. E o nome da van poderia ser “Caça Fumaça”. E aí a reportagem nos informa que só no ano passado foram examinados 400.000 carros, “sem distinção do ano de fabricação”. Curioso: não soube que isso tenha ocorrido, nem muito menos conheço alguém que tenha tido seu carro vistoriado. E esse único veículo dotado das traquitanas de inspeção in loco terá a responsabilidade de observar os milhões de carros que compõem o trânsito diário dessa megalópole que é São Paulo? Então não se consegue sequer fazer com que os carros estejam em dia com seus compromissos que já existem, coisas banais como licenciamento e pagamento de multas, mas, forçando a espinha dorsal das irregularidades, conseguiremos, em um feito inédito para um país tão informal e carregado de desprezo pelas normas e leis, transformar essa balbúrdia poluidora em algo controlado? OK, mas eu gostaria de ser informado com frequencia (sem trema e sem circunflexo) a quantas anda o número de veículos inspecionados. Se eu não estou enganado, parece que não está havendo assim uma adesão em massa. Mas prossigamos: há também a questão do custo da tal inspeção, R$ 52,73. A prefeitura de São Paulo, imbuída de um espírito cívico da mais alta estirpe, disse que devolverá esse valor a cada proprietário que se submeter à avaliação (cujo veículo for devidamente aprovado, e após a quitação do licenciamento e de qualquer outra dívida que tiver com o município ou com o Detran). Certo. Mas isso traz antigos aromas de malfadados eventos, como os compulsórios sobre os combustíveis, o compulsório sobre o veículo 0 km, e por aí vai. Alguém se lembra dos desfechos? Outra coisa: numa urbe como essa, com sua enorme extensão geográfica, e pensando nos veículos que deverão ser inspecionados, o que você acha de termos à disposição 4 (quatro!) centros de atendimento, quando o que estava previsto eram 32? Estão prometendo inaugurar mais 9 até o fim do ano. Perfeito! Mas o que continua sem resposta são algumas outras questões espinhosas: porque na cidade de São Paulo as moradias continuam a invadir as áreas de mananciais, enquanto o governante do momento (qualquer momento) faz cara de paisagem, fingindo que isso não é com ele? Porque continuam os desmatamentos predatórios e criminosos na Amazônia, sem que os assoberbados governantes sequer deem um pio a respeito (a não ser, quando muito, para questionar os critérios de medição)? Quem serão as pessoas envolvidas nesses crimes? Serão os mesmos que constroem castelos e se garantem sob o amplo manto da impunidade que protege os parlamentares brasileiros? E os rios que cortam a cidade de São Paulo (Tietê, Pinheiros, Tamanduateí, etc.), fossas e esgotos a céu aberto, que consumiram bilhões de reais ao longo de muitos anos (e diversos governos) - dinheiro esse que normalmente vem de outros países - para despoluição; porque continuam podres e mortos? Voltando ao início da crônica da semana passada: os governantes são eleitos e no final das contas acabam fazendo o que bem entendem com seus mandatos. E nós ficamos por aqui, nos submetendo aos caprichos de cada um que entra para o governo (em qualquer esfera: municipal, estadual ou federal), como servos de antigos feudos, só admirando os castelos dos nossos senhores à distância e maldizendo a burocracia que teima em nos enredar. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-7085125627060715576?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/7085125627060715576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-20.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7085125627060715576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7085125627060715576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-20.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 20'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4913755809737879943</id><published>2009-02-12T17:33:00.001-08:00</published><updated>2009-02-12T17:38:54.433-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 19</title><content type='html'>João Ubaldo Ribeiro já disse mais de uma vez, sempre mesclando desilusão e ironia, sublinhando tudo com sua língua ferina e afiada (e ele sabe do que está falando: foi professor de Ciências Políticas na Universidade Federal da Bahia), que os políticos, depois de eleitos, na verdade fazem o que bem entendem. Durante a campanha eleitoral eles se aproximam do populacho, prometem mundos e fundos, abraçam chorosas criancinhas de colo, suam (literalmente) a camisa nos comícios, se desdobram para que possamos entender que eles serão, efetivamente, a nossa voz lá no cargo que eles exercerem. Pois bem, assim que eleitos a coisa muda de figura. E aí dá-lhe tomarem decisões que não tem nada a ver com o que prometeram, ou então começarem a tomar atitudes que não só não condizem com as propostas da campanha, mas que também batem de frente com tudo aquilo que desejamos que os eleitos façam por nós. Quantas vezes nos pegamos aturdidos com as atitudes dos políticos, perplexos com os mandos e desmandos que permeiam seus mandatos, qualquer que seja o poder que exerçam. Depois de eleitos, nós, os eleitores, passamos a ser meros detalhes para eles. Passamos a ser fantasmas que assombram seu passado, e que voltaremos a assombrá-los no futuro, quando novamente se avizinharem outras eleições. Como diria aquele antigo personagem do Chico Anysio: “O povo? Eu quero que se exploda!”. Eu tecia essas inconsequentes considerações ao ler a matéria chamada “O bê-á-bá da inspeção veicular” na Vejinha de 11/02/2009. Claro que é excelente que o governo, qualquer que seja a matiz política do governante abnegado que ocupa a cadeira no momento, tenha preocupações com o meio ambiente, com a qualidade de vida dos cidadãos, etc. E nisso está incluída, sem a menor sombra de dúvida, a questão latente da tenebrosa poluição urbana. Então só podemos parabenizar pela iniciativa que ora chega até nós: antes tarde do que nunca. Porém, e sempre há os poréns, começam os diabinhos a soprar nos nossos malfadados ouvidos (já de fato sobrecarregados pela poluição ambiental: ô diacho de cidade barulhenta!). Primeiro a questão da contratação da iniciativa privada para promover as tais inspeções. Vemos, como sempre, só a ponta do iceberg. Como será que se desenrolaram as maracutaias por baixos dos panos, às escondidas do nosso conhecimento? Muitos devem se lembrar das etiquetas que colávamos nos parabrisas à guisa de controle para o licenciamento anual dos veículos. Ou então daquelas bolsinhas de primeiros socorros, que chegaram a ser vendidas até por ambulantes em semáforos. Tudo feito com a melhor das boas vontades. O diabo era &lt;em&gt;como&lt;/em&gt; era feito, e não &lt;em&gt;porque&lt;/em&gt; era feito. “Ah - alguns poderão argumentar – mas se esse serviço de inspeção veicular fosse levado a cabo pelas próprias instituições públicas, aí sim teríamos baderna, demoras, atrasos, suborno, e toda a sorte de alternativas matreiras para corromper o sistema”. E como ficamos? Enchemos as burras da iniciativa privada (por um serviço que poderá simplesmente ser esquecido e jogado para as traças em um futuro próximo), ou ficamos com as empresas públicas, com sua inoperância e má vontade seculares? Se correr o bicho pega e etc. Em segundo lugar vem as pérolas. Na matéria da Vejinha há um tira-dúvidas, na base de perguntas e respostas. Logo na segunda pergunta há uma questão espinhosa: porque serão avaliados apenas os veículos fabricados a partir de 2003? Aí o Secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Sr. Eduardo Jorge, responde candidamente que a prefeitura “já verificou que entre 30 e 40% da frota a diesel fabricada antes de 2003 está na ilegalidade (o proprietário não paga nem imposto, nem multas)”; daí concluíram que esse índice também deve afetar a frota dos veículos de passeio na mesma medida; então conclui-se, de forma magnânima, “que a convocação para a inspeção veicular poderia aumentar a parcela dos proprietários em situação irregular”. Como diria um primo meu: deixa ver se eu entendi. Então, para que aqueles que já estão na clandestinidade não fiquem piores do que estão, nós não vamos incomodá-los, piorando a situação. Porque? Ora, porque “a inspeção é um pré-requisito para o licenciamento”. Então vamos convocar a parcela de trouxas, digo, de cidadãos, que tem seus compromissos mantidos em dia. Por coincidência, aqueles que possuem os carros mais novos. Um sujeito que tenha comprado um carro novo em Novembro de 2008, por exemplo, terá que fazer a inspeção em 2009, mesmo que seja apenas alguns minguados meses depois de ter colocado o carro para rodar. E aí terá direito ao simpático selinho no parabrisa, que será ostentado com garbo e orgulho pela cidade afora. E aquele que tem seu honesto carrinho fabricado antes de 2003, mesmo que fume mais do que a Esquadrilha da Fumaça, vai estar livre dessa, continuando a despejar seus quilinhos de monóxido de carbono enquanto flana por nossas abarrotadas vias de tráfego. Como esse assunto é um pouco extenso, a segunda e última parte fica para a semana que vem. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4913755809737879943?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4913755809737879943/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-19.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4913755809737879943'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4913755809737879943'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-19.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 19'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6336929343863532886</id><published>2009-02-05T17:15:00.000-08:00</published><updated>2009-02-05T17:20:52.867-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 18</title><content type='html'>Eu sei que literatura não é lá dos assuntos mais palpitantes para a maioria da população, mas para mim representa o nirvana (não aquele do Kurt Cobain, claro!), o refúgio seguro onde posso encontrar outras culturas, onde posso encontrar a minha própria cultura, onde posso desvendar os infindáveis mistérios da mente humana, onde posso encontrar um outro qualquer que habita sorrateiramente em mim, onde posso me enxergar por trás das máscaras que eu mesmo construí ao longo dos anos. Posso olhar para um livro e enxergar um espelho, às vezes de imagens retorcidas, às vezes de imagens cristalinas e límpidas, às vezes apavorante por expor o avesso da realidade. Por toda essa importância que eu dou à literatura e, por extensão, à educação, é que sinto pena por sermos governados por um presidente que diz que não lê jornais, porque isso lhe dá azia. Também não se vê um livro nas suas mãos, nem tampouco temos conhecimento de algum livro que repouse na cabeceira da sua cama. Pena que ele seja um exemplo de pessoa que não estudou formalmente, não se instruiu pelos caminhos tradicionais. E sinto mais pena ainda quando ouço alguém se vangloriar dessa circunstância. “Ah, ele é formado pela faculdade da vida!”. Essa expressão em geral está atrelada a alguém que justifica sua própria falta de estudos, pela comparação rasa e esgarçada com “alguém que chegou lá”. Pena que muita gente, principalmente neste país, considere que ler é um esforço, quando ler deve ser, antes de tudo, um prazer. Deve ser um desprendimento, deve ser uma janela para ampliar nossa visão do mundo, um buraco para enxergarmos outras dimensões. E ler é a base da educação. Não vejo país que seja desenvolvido e adiantado, que não tenha passado por um processo exaustivo de evolução educacional. Na década de 1960 o Brasil estava bem na foto quando comparado, por exemplo, com a Coréia do Sul. Nossos indicadores sócio-econômicos eram melhores do que os deles. Bem melhores. De lá para cá a Coréia do Sul empreendeu uma dura e longa batalha para galgar penosamente os degraus que conduzem um país para patamares sociais mais altos. Ou seja, investiu pesadamente em educação. Mas não por cinco ou dez anos; ou por um ou dois mandatos presidenciais. Investiu por vinte, trinta anos consecutivos. Hoje o Brasil perdeu a Coréia do Sul de vista. Ficamos na poeira da estrada, observando enquanto ela se distanciava à nossa frente. Os indicadores sócio-econômicos da década de 1960 viraram de pernas para o ar. Hoje estamos assim: há um ranking das 100 melhores escolas de MBA do mundo, que começou a ser elaborada há cerca de 10 anos atrás. No topo da lista está Wharton, nos Estados Unidos, empatada com a LBS, London Business School, da Inglaterra, esta última pela primeira vez em primeiro lugar. Dos vários critérios adotados para apurar a posição de uma escola nesse ranking, até mesmo o montante anual de salário que um aluno recebe depois de formado é analisado. Porque não basta um currículo exemplar: o estudo tem que ter resultados práticos. Você sabe quantas escolas brasileiras estão nessa lista? Apenas uma, em 92º lugar: Copead, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que não é uma estreante; está na lista pela sétima vez em dez anos. Mas é só, em termos de Brasil. E toda essa consideração sobre literatura (e educação) porque eu queria falar sobre os autores japoneses. Acabei de ler “Coração” (“Kokoro”), de Natsume Soseki, um autor da Era Meiji (que se encerrou em 1912, com a morte do Imperador de mesmo nome). Soseki morreu em 1916, e é um autor tão importante para os japoneses que teve seu rosto estampado nas notas de 1.000 ienes (até 2004, se eu não me engano). Anteriormente, e há pouco tempo atrás, li Junichiro Tanizaki (“Amor insensato”, “Diário de um velho louco”), Yasunari Kawabata (“A casa das belas adormecidas”, “Kioto”, “Mil tsurus”), Kenzaburo Oe (“Uma questão pessoal”) e Yukio Mishima (“Confissões de uma máscara”). Kawabata e Oe foram premiados com o Nobel de Literatura (em 1968 e em 1994, respectivamente), prêmio este que até pode ser questionado (principalmente levando-se em consideração aqueles autores que não foram agraciados), mas não desprezado. E o que se pode encontrar na literatura japonesa? Muitas coisas: histórias densas, narradas formalmente, tecidas de forma laboriosa e absolutamente complexas na sua simplicidade. Histórias que encantam em silêncio e harmonia, como se os autores construíssem colméias literárias, a partir da junção de inúmeros alvéolos dourados, todos da mesma forma e tamanho, de uma maneira minimalista e surpreendente. Mesmo sem descrições muito detalhadas, enxergamos os andares macios, os rostos ruborizados, os quartos residenciais medidos por números de tatames, as cerimônias do chá, as mesuras silenciosas, a cultura altaneira e opressiva, os rituais sagrados ou profanos. Tudo isso através dos livros. E isso é pouco? Sayonará! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6336929343863532886?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6336929343863532886/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-18.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6336929343863532886'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6336929343863532886'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/02/artigo-indefinido-ano-1-n-18.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 18'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4774430168653767509</id><published>2009-01-29T11:34:00.000-08:00</published><updated>2009-01-29T11:41:34.946-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 17</title><content type='html'>Escrevo esta crônica em 27 de Janeiro porque hoje eu soube, através das ondas do rádio, ouvindo o noticiário da CBN enquanto dirigia de volta para casa, que John Updike morreu. Mais tarde, ao chegar em casa, vi o William Bonner anunciar a morte desse escritor no Jornal Nacional, mas não cheguei a assistir a matéria televisiva. No rádio ouvi só a manchete da notícia: “faleceu hoje, aos setenta e seis anos de idade, o escritor americano John Updike”. E só. Não sei o que o Jornal Nacional comentou a respeito. Tenho um pouco de dificuldade para imaginar como seria a matéria na televisão. Afinal, não se tratava de uma dessas celebridades instantâneas, ou mesmo de uma estrela de conhecimento público. Ele poderia passear por qualquer cidade do Brasil sem ser reconhecido. O que ele, aliás, deve ter feito, porque veio para cá, e até mesmo lançou um romance chamado “Brazil”, no qual parte da ação se passa no interior de uma favela carioca, incrustada no morro, como bem manda o lugar-comum. Lembro que o livro narrava um romance entre um rapaz do morro e uma moça do ― digamos ― asfalto. Era uma releitura aberta e despojada de Tristão e Isolda. Não gostei do livro. Bem depois de ter lido esse livro, li uma análise que dizia que lemos com redobrada desconfiança, e um pouco de descrença, histórias escritas por estrangeiros que sejam passadas no país em que vivemos. Parece que sempre fica um olhar estrangeiro, em parte um olhar de estranho, em parte um olhar de turista. Pode até culminar em uma obra bem acabada, e até mesmo imbuída das melhores intenções, mas dificilmente vai agradar aos nativos. Isso não aconteceria se, por exemplo, fosse um americano contando uma história passada na Itália, ou em qualquer outro país. Mas, enfim... O fato é que procurei o livro “Brazil” aqui em casa e não achei. Deve ter ido fazer companhia para aquela multidão silenciosa de livros que desaparecem das nossas casas como que por encanto, materializando-se em locais estranhos às suas origens. Acho mesmo que se eu tivesse em casa todos os livros que comprei ao longo da vida, provavelmente teria alguns problemas para guardá-los adequadamente. Mesmo assim fiz um rápido inventário, vasculhando na estante do “escritório caseiro” e achei os seguintes títulos do mesmo autor: “Busca o meu rosto”, “Na beleza dos lírios”, “Pai-nosso computador”, “Memórias em branco” e “Consciência à flor da pele”. Encontrei também o que deve ser provavelmente sua obra mais conhecida: os livros que compõem a tetralogia sobre o personagem “Coelho” (Harry “Rabbit” Angstrom), que são (pela ordem cronológica): “Coelho corre”, “Coelho em crise”, “Coelho cresce” e “Coelho cai”. Essa tetralogia é, para mim, a sua melhor produção ― um retrato riquíssimo do panorama americano, mostrado como pano de fundo enquanto é narrada a história desse personagem que é, ao mesmo tempo, prosaico e fantástico. O primeiro livro da série rendeu-lhe o primeiro prêmio Pulitzer; o segundo livro, o segundo prêmio. Detalhe: a distância entre o primeiro livro do “Coelho” e o último é de 30 anos (o primeiro é de 1960 e o último de 1990). É dele também, mas eu não li, “As bruxas de Eastwick”, um best-seller que depois virou um filme de sucesso, estrelado por ninguém menos do que Jack Nicholson (e também pela Cher, Michelle Pfeifer e Susan Sarandon). Outro livro dele que já tive, mas sumiu na poeira inexorável do tempo, é “Casais trocados”, adquirido através do Círculo do Livro (lembram-se dos catálogos, dos livros com capas duras?). John Updike foi muito premiado, tendo escrito de forma prolífica, o que resultou em uma vasta obra: romances, ensaios, poesia, teatro, crítica. Lembro de uma declaração dele afirmando que só se sentia bem se escrevesse ao menos uma página por dia, todos os dias; para ele, dia em que não escrevesse era como se fosse um dia perdido. Chegou a ter seu nome aventado como merecedor do Nobel de Literatura, mas ficou mesmo só na intenção. Foi um escritor ao mesmo tempo aclamado e atacado pela crítica. Chegou a ser acusado de misógino, racista, a favor do establishment, e por aí vai. Norman Mailler, outro grande escritor americano (também ganhador de dois Pulitzer e grande polemista), dizia que Updike era um escritor feito para quem não sabia ler. Mas eu fico com a minha própria opinião: um excelente escritor, com uma visão aguçadíssima do comportamento humano e um dom elevado para descrever minuciosamente o cenário americano, principalmente dos chamados subúrbios. Controvertido? Pode ser, mas interessante e merecedor de uma boa leitura. O que ele escreveu faz parte do meu lastro de cultura, e sua imagem não pode mais ser dissociada do cenário literário contemporâneo, assim como ocorre com outros renomados escritores americanos da atualidade, como Philip Roth, Tom Wolfe ou Paul Auster. O título em inglês do último livro do “Coelho” é “Rabbit at rest” (coelho em repouso, ou descanso). E o que me vem à cabeça é dizer a ele o surrado bordão fúnebre: rest in peace! (a famosa abreviação: “r.i.p.”: descanse em paz). Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4774430168653767509?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4774430168653767509/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-17.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4774430168653767509'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4774430168653767509'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-17.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 17'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-6549596933398180363</id><published>2009-01-22T17:54:00.001-08:00</published><updated>2009-01-22T17:59:47.398-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 16</title><content type='html'>“&lt;em&gt;A Altria, fabricante do cigarro Marlboro, informou ter completado a aquisição da UST, que faz fumo de mascar e rapé, por US$ 10,4 bilhões&lt;/em&gt;”. Essa curta nota financeira foi publicada em 07/01/09 na parte Internacional da coluna “&lt;em&gt;What’s News&lt;/em&gt;”, do Jornal &lt;strong&gt;Valor Econômico&lt;/strong&gt;. Então, vejamos: uma empresa que fabrica fumo de mascar e rapé vale &lt;em&gt;US$ 10,4 bilhões&lt;/em&gt;? Dei uma olhada na internet: na verdade a UST é composta de duas divisões principais, e uma delas é a que fabrica o que eles chamam de smokeless tobacco (a outra opera com vinhos). Entre as marcas mais conhecidas no mercado americano estão Copenhagen, Skoal, Red Seal, Rooster e Husky, todas apresentadas em simpáticas latinhas, semelhantes àquelas das pastilhas Valda (informação válida apenas para aqueles que se lembram; não sei se ainda são comercializadas dessa forma; eram muito úteis para guardar pequenos badulaques como botões, alfinetes, anzóis, etc.). Engraçado, nessa história, é que assim que vi essa matéria no jornal, li também a matéria sobre a Islândia (na revista &lt;strong&gt;piauí&lt;/strong&gt;), que serviu de base para um Artigo Indefinido anterior. E uma pessoa retratada na matéria da revista cheirava rapé. Na Islândia! Mas afinal, quem são esses vorazes consumidores de fumo de mascar e rapé? Vorazes, sim, porque afinal consomem um volume tal dessas – hã! – mercadorias que justificam esse valor exorbitante pago na compra da companhia inteira. Primeira reação: não conheço ninguém que consuma esses produtos, aqui no nosso terreiro tupiniquim. Segunda reação: lembranças de tempos (há muito) idos, só realmente conhecidos através da leitura de livros da época (segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX). Consequência (sem trema) da Segunda reação: um sorriso brota no rosto ao lembrar da descoberta (nos textos dos tais livros com histórias antigas), ainda criança, do termo utilizado para designar as pequenas e portáteis caixas para carregar rapé, hoje (ainda) um palavrão da pesada (é a designação chula para o órgão sexual feminino). Dizem que o rapé era (ainda deve ser) viciante, apesar do efeito ingênuo e até mesmo prosaico. O sujeito, o tal viciado, saca do bolsinho interno do paletó a caixinha de nome impublicável, abre e retira um pequenina porção, pinçando com a união do polegar e do indicador. Daí pressiona o pó (com o indicador) contra uma das narinas e – voilá – espirra. Só isso. Como será a conexão entre a função da caixinha e o palavrão atual? Ou não há conexão, restando apenas uma coincidência inexplicável de palavras iguais na grafia, mas diferentes no sentido? E o mascador de fumo? Onde está esse sujeito? Ou essa sujeita, claro, porque o produto deve ser unissex. Ao mesmo tempo leio na Veja que uma das razões mais explícitas para os EUA serem a potência que são, pode ser constatado pelo número de patentes que eles requerem nos três principais escritórios internacionais de registro de patentes: acima de 16.000. O Japão, em honroso segundo lugar, aparece com 15.000 pedidos de patentes. No grupo chamado Bric, que reúne Brasil, Rússia, Índia e China, os números são desalentadores. A China tem média anual de 400 patentes, a Índia, 130 e o Brasil, na lanterninha, 60 (não vi menção sobre a Rússia, mas também não deve ser lá essas coisas). Que tal comparar 16.000 com 60? E aí, aquele país altamente tecnológico tem, por outro lado, uma empresa que fabrica fumo de mascar e rapé, nada mais anacrônico e paradoxal. Claro que, para não perder o jeito de potência hegemônica, a empresa vale uma fábula impressionante. Pensei na aquisição da Aracruz pela Votorantim, ora em curso, dois gigantes que unidos vão formar a maior empresa do mundo em fabricação de celulose. Para adquirir vinte e oito vírgula alguma coisa da participação acionária da Aracruz, a Votorantim terá que desembolsar cerca de R$ 2,7 bilhões. Fazendo uma continha simples (se vinte e oito por cento valem R$ 2,7 bilhões, quanto vale o todo?), chegamos próximos a R$ 10 bilhões (arredondando). Estou em dúvida, neste instante, quanto à moeda: será US$ ou R$? Acho que é em R$. De qualquer forma, a Aracruz, em R$ ou em US$, vale menos do que a UST. Digerindo essas elocubrações, só o que posso fazer é parafrasear algum personagem dos livros antigos (após um solene espirro provocado por um rapé virtual, um e-rapé) e exclamar, espantado: Cáspite! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-6549596933398180363?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/6549596933398180363/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-16.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6549596933398180363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/6549596933398180363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-16.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 16'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-3393825948839654738</id><published>2009-01-15T13:45:00.000-08:00</published><updated>2009-01-15T13:50:11.364-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 15</title><content type='html'>Rio de Janeiro, 1972. Num boteco do Leblon estão sentados e - naturalmente - bebendo, Chico Buarque, Mário Prata e Eric Nepomuceno. O primeiro dispensa apresentações e os outros dois são escritores. Mário Prata, ótimo cronista, foi quem publicou a crônica sobre a morte do Fabinho, no Estadão, em Outubro de 2003. Discutem sobre a realização de uma peça de teatro. O Mário diz para o Chico que a parte musical cabe exclusivamente a ele, Chico, já que ele próprio, o Mário, desafinava até para cantar “parabéns pra você”. Eu sou aquela pessoa, disse o Mário, que as crianças até olham para trás, durante o “parabéns”, para saber quem está cantando daquele jeito. O Chico não acreditou. Ninguém podia ser tão ruim assim. Insistiu para que o Mário cantasse ali mesmo o “parabéns”. Aí o Mário não se fez de rogado e começou a cantar, e o Chico a prestar atenção. O Mário então se entusiasma e canta o “parabéns” inteiro, em alto e bom som. Sem que eles se dessem conta, o bar começou a ficar em silêncio, afinal o Mário Prata estava cantando “parabéns pra você” para o Chico Buarque, que escutava atentamente. Quando o Mário acabou de cantar, grande parte das pessoas que estava no bar aplaudiu. Aplaudiu o Chico, não o Prata, afinal ele era o aniversariante. As pessoas foram até a mesa deles para parabenizar o Chico, o dono do bar mandou uma rodada por conta da casa, amigos avisaram outros amigos, o bar encheu, e todos vararam a noite naquela comemoração. Saiu até na coluna do Zózimo Barroso do Amaral, no dia seguinte. E faltavam pelo menos uns seis meses para o aniversário do Chico. Essa historieta, e muitas outras semelhantes, faz parte do livro “Minhas mulheres e meus homens”, escrito pelo Mário Prata e publicado em 1999 pela Editora Objetiva. Estou relendo como forma de desanuviar a mente, depois de passar pela densa história de “Dois irmãos”, do Milton Hatoum. E aí me veio à mente uma história parecida, mas que não teve a participação de qualquer celebridade, que eu não posso deixar de contar. Não sei precisar quando ocorreu, mas é coisa aí entre quinze a vinte anos atrás. Juntamos eu e a Fatima, o Zé Carlos e a Lúcia e o Roberto e a Sílvia, e resolvemos ir a um restaurante de comida nordestina, o Andrade, na Rua Artur de Azevedo, uma travessa da R. Henrique Schaumann, em Pinheiros. Além da comida típica, também havia música ao vivo. Chegamos depois das onze horas da noite e tivemos que esperar um bocado por uma mesa. De maneira que só entramos e sentamos por volta da meia-noite (será que ainda tem hífen?). Para nossa surpresa, a banda que tocava música nordestina parava naquele instante de tocar, e a música passava a ser sertaneja. Não era o que pretendíamos, mas tudo bem. A uma certa altura, pensando em agitar um pouco a situação, e sabendo que o Roberto não era propriamente um fã de música sertaneja, me levantei e disse para os outros que iria ao banheiro. Em vez disso, fui até a banda e perguntei como poderia oferecer uma música. Um deles me informou que bastava escrever num pedaço de papel e encaminhar pelo garçom. Peguei um guardanapo de papel, uma caneta e escrevi: “Fio de Cabelo” para Roberto de Nápoli. Mas aí embatuquei: a coisa toda ficou estranha. Um homem oferecendo uma música para outro homem, essas bobagens. Então, sem outra inspiração, escrevi, complementando, “pelo aniversário”, e voltei para a mesa. De repente a banda parou de tocar e o cantor informou, para o restaurante inteiro (que não era pequeno, contando até com uma pista de dança em frente ao palco), que havia naquela noite um aniversariante. E anunciou bem alto: Roberto de Nápoli. O Roberto ficou pálido e olhou para mim, como se perguntasse: o que está acontecendo? Aí a banda atacou um vigoroso “parabéns pra você”, acompanhada do coral de vozes dos outros frequentadores (sem trema), e a gente rindo até não mais poder. Eu mesmo havia sido pego de surpresa pela inesperada reação em cadeia, mas o que se podia fazer? Ainda teve o anúncio que seria servida champanhe na nossa mesa, por conta da casa, e quando um garçom se dirigiu para nós com uma gloriosa garrafa da mais autêntica cidra, o gerente da casa fez com que ele voltasse: eles haviam prometido champanhe! Fizemos um brinde e continuamos a rir muito, até que meu maxilar quase travou, doendo de tanta risada. O Roberto prontamente prometeu vingança e disse que não deixaria mais que eu fosse sozinho ao banheiro, o que, afinal de contas, não seria uma atitude das mais másculas, mas fazer o quê? Prevenir é melhor do que remediar. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-3393825948839654738?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/3393825948839654738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-15.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3393825948839654738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/3393825948839654738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-15.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 15'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4348210055458188428</id><published>2009-01-08T14:44:00.001-08:00</published><updated>2009-01-08T14:47:49.966-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 14</title><content type='html'>Você sabe o que é “&lt;em&gt;patronímico&lt;/em&gt;”? De acordo com o Dicionário Aurélio Básico da língua Portuguesa, que já está desatualizado: “Adj. 1. Relativo a pai, especialmente quanto a nomes de família. 2. Diz-se do sobrenome derivado do nome do pai ou de um antecessor. = S. m. 3. Sobrenome derivado do nome do pai: Rodrigues (filho de Rodrigo); Dias (filho de Dídaco); Atrida (filho de Atreu). 4. P. ext. Neol. Nome designativo de uma linhagem: Antoninos (dinastia romana); Braganças (dinastia portuguesa).” Essa palavra aparece na única nota de rodapé da matéria intitulada “A grande Ilusão”, escrita pelo João Moreira Salles para a revista &lt;strong&gt;piauí&lt;/strong&gt; (assim mesmo, com letras minúsculas) de número 28, editada neste mês de Janeiro. Essa matéria discorre detalhadamente o que ocorreu recentemente com a economia da Islândia, um país situado no Atlântico Norte (na verdade, uma ilha isolada no oceano), ao noroeste da Europa, em direção da Groelândia, com uma população bem pequena, de cerca de trezentas mil pessoas, e com algumas características interessantes. Uma delas é que o país é considerado como parte da Europa, mas poderia também ser considerado como parte da América do Norte, por sua posição meridiana entre os dois continentes. Outra delas é que essa população descende diretamente dos vickings, que por lá aportaram no século IX (a Wikipédia informa que antes chegaram lá os monges irlandeses eremitas, mas estes partiram com a chegada dos nórdicos), de maneira que podem-se traçar árvores genealógicas bem grandes, remontando a muitas gerações passadas, com certa facilidade. Isso ocorre porque nunca houve qualquer interesse em populações de outros países de emigrarem para lá, de maneira que não há esse caldeirão de raças tão encontradiço por estas plagas. Esse desinteresse decorre principalmente do isolamento do país, pela economia voltada esmagadoramente para atividades vinculadas à pesca (até o final da década de 1990, quando ocorreram mudanças radicais, que levaram o país em cerca de dez anos da sua condição de nulidade econômica para uma outra condição diametralmente oposta, de potência financeira, e no fim, de outubro de 2008 para cá, para a bancarrota, a falência, a quebradeira generalizada), pelas extensas terras inóspitas (cerca de três quartos da ilha não possui vegetação), etc. Outra característica é que os sobrenomes são proibidos, a não ser em casos muito particulares. Aí é que entra o tal “&lt;em&gt;patronímico&lt;/em&gt;” e a explicação no rodapé. A segunda parte do nome dos islandeses representa de quem a pessoa descende. Por exemplo: em vez de Adalberto Nogueira, lá meu nome seria algo como Adalberto Filho do José. Por esse motivo, as listas telefônicas naquele país são ordenadas pelos prenomes. A matéria da &lt;strong&gt;piauí&lt;/strong&gt; informa que manteve o nosso hábito de citar o sobrenome (quando um jornal brasileiro fala sobre, por exemplo, o presidente do Banco Central brasileiro, Henrique Meirelles, primeiro o texto menciona o nome inteiro, mas no desenrolar da matéria se atém apenas ao sobrenome), mas que isso, para quem é da Islândia, não tem muito sentido, porque estaríamos apenas nos referindo à pessoa de quem a pessoa é filho ou filha, e não à pessoa em si, o que só pode ser compreendido se usarmos o prenome. Esta última característica me remeteu às histórias contadas por meu pai, que dizia que no sul de Minas Gerais era comum esse comportamento (desprezar o sobrenome familiar e colocar junto ao prenome o nome do pai ou da mãe; e grande parte das vezes era usado o nome da mãe). Então José Nogueira passava a ser o Zé da Ana. Podia haver o João da Inácia, o Pedro da Maria, e assim por diante. Claro que não oficialmente, como no caso da Islândia, mas sim impregnando as relações informais, o que ajudava a aproximar e identificar melhor as pessoas. “Quem foi o menino que quebrou essa vidraça? Foi o Zé? Mas qual Zé? Ah, bom, o Zé da Chica! Sei quem é esse pestinha!” Imagino até, sem qualquer conhecimento específico, que muita confusão deve ter ocorrido por aqueles rincões, nas épocas mais antigas, quando alguém ia ser registrado no cartório civil (isso quando ia) e o pai se atrapalhava com as linhagens familiares. As árvores genealógicas no Brasil devem ter desenhos consideravelmente abstratos, com galhos tortos, galhos quebrados, galhos que sumiram, e assim por diante. Nem Sherlock Holmes desvendaria esses mistérios. E isso não é nada elementar, caro Watson (filho do Wat?). Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4348210055458188428?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4348210055458188428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-14.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4348210055458188428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4348210055458188428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-14.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 14'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-5650225283970420842</id><published>2009-01-01T15:10:00.000-08:00</published><updated>2009-01-01T15:15:39.372-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 13</title><content type='html'>Primeiro de Janeiro de 2009! Primeira crônica desse ano novo, que nasce coberto de mistérios e dúvidas. Só espero que o fato de ser numerada com o famigerado número 13 não represente qualquer tipo de mau augúrio. O velho lobo Zagallo (“vocês vão ter que me engolir!”) sempre contrariou a crença pública quanto aos maus presságios vinculados a esse número. Mas, afinal de contas, é apenas um número como qualquer outro. Ou não? Vá se saber! Mas voltando às dúvidas e mistérios. Como se comportará esse 2009? Para começar, sem sermos consultados (como sempre!) estamos às voltas, a partir de hoje, com a nova grafia da língua portuguesa. Até 2012 poderemos continuar escrevendo da mesma forma (como são condescendentes aqueles que nos governam!), mas a partir desse ano não se poderá mais deixar de lado as mudanças, que não são poucas. De forma que a partir daí toda a escrita formal deverá seguir as novas regras: sumiço do trema, mudanças na utilização do hífen, saída de cena dos acentos agudo e circunflexo em algumas palavras (estréia, vôo, etc.), reintrodução das letras k, w e y, e por aí vai. A questão do trema me intriga, porque a mudança na escrita não alterará a pronúncia. Então a palavra “conseqüência” continuará sendo falada da mesma forma, apesar de perder o trema, o que a aproximará da grafia de outras palavras cujas pronúncias são diferentes, como “quente” ou “querer”. Qual será o critério para distinguirmos umas das outras? Aprende-se a palavra como deve ser dita e pronto? “— Olha, criança,“quente” é “kente” e “conseqüência” é “consecuência”, e não me torre a paciência!” Ora, pois. E aí, ao depararmos com uma palavra cuja pronúncia não nos foi ensinada previamente, a quem recorreremos? Ao dicionário, claro, que estará atualizado para ajudar-nos nessa tarefa, já que não teremos um critério claro para entendermos de pronto a pronúncia correta. Como diria o Professor Pasquale: é isso! Agora imaginem quanto dinheiro não vai ser usado para regularizarem essa canetada oficial! Precisarão ser corrigidos todos os dicionários, todos os programas de texto, as redações de jornais, os livros de consulta permanente, todos os livros didáticos, etc, etc e etc. Dá para ter noção do volume de trabalho, e conseqüentemente de custo, que essas mudanças vão ensejar? Não é uma coisa, digamos assim, bem oportuna? Dizem que a finalidade dessas mudanças é carregada de boas intenções, mas convenhamos, quem não conhece o bordão de que o inferno está cheio de gente com boas intenções? Por isso voltamos ao velho lobo Zagallo: essa reforma também está petulantemente nos enfrentando: “vocês vão ter que me engolir!”. Uma pílula amarga a menos ou a mais, que diferença faz? E retornamos aos mistérios e dúvidas desse – por enquanto – indefinível 2009. Após o porre econômico de 2008 (estouro da bolha imobiliária nos EUA, os títulos sub-primes, os bancos de investimento quebrando, o empoçamento da liquidez, a queda vertiginosa dos preços das commodities, a alta do dólar, os perigos da deflação e do encolhimento do consumo, a iminente quebradeira das três maiores montadoras automobilísticas americanas, a asa negra do desemprego sombreando todo mundo, e por aí vai), como será a ressaca em 2009? A grande esperança proporcionada pela eleição de Barack Obama: qual será o efetivo resultado? O novo presidente norte-americano está convocando gente da velha guarda para resolver os problemas atuais. Isso é a mudança que ele pregou enquanto era candidato? Até que ponto isso resultará em algo positivo? Ele vai conseguir estabilizar a maior economia do mundo e dar um fôlego para todas as demais economias dos países satélites? Falar em globalização hoje é redundância das redundâncias. Só quem é desprovido do mais básico entendimento econômico poderia dizer, como disse nosso presidente, que esse tsunami financeiro chegaria ao nosso país como uma simples marolinha. Isso porque a nossa economia estaria “blindada” contra esses revezes. Como diria a personagem do humorístico Zorra Total: “Tá bom, tá bom, tá bom! Quer dizer, bom, bom, bom não tá, mas tá bom!” Eu vejo com muito, mas muito mesmo, ceticismo, qualquer tipo de previsão econômica para 2009. Quais eram mesmo as previsões feitas no início de 2008? Há como confiar em previsões com esse cenário conturbado e complicadíssimo? O que podemos fazer é trabalhar, cada um na sua medida e no seu empenho, para que tudo funcione a contento, e assim transformarmos as esperanças que depositamos no ano novo em algo concreto e positivo. O jeito é respirar fundo, levantar a cabeça e seguir em frente: que venha 2009! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-5650225283970420842?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/5650225283970420842/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-13.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5650225283970420842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/5650225283970420842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2009/01/artigo-indefinido-ano-1-n-13.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 13'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-4888397211662433872</id><published>2008-12-25T14:10:00.000-08:00</published><updated>2008-12-25T14:17:38.988-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 12</title><content type='html'>A voz potente do Tim Maia invadiu a cabine do carro e a música, iniciada num tom quase sussurrado, logo parte para um crescendo e faz reverberar os alto-falantes. Cheio de ginga e suíngue ele canta: “Você é algo assim: é tudo pra mim, é como eu sonhava, baby!”. A música se chama, apropriadamente, “Você”. E, como uma coisa leva a outra, logo passei a pensar na mais nova “moda” lingüística brasileira: como passamos a usar a palavra “você”. Interessante, nesse caso, é que na frase mais romântica da nossa língua (“Eu te amo”), desprezamos justamente o “você”. Porque não “eu amo você”? Acho que isso ocorre pela nossa tendência em tentar “caprichar” no vernáculo na hora de dizer alguma coisa mais profunda. “Eu amo você” acaba sendo uma forma muito singela e corriqueira para tratar de um assunto tão tocante (ainda que muitíssimo banalizado). Só dói quando leio alguma coisa como: “Eu ti amo”. Aí já é o assassinato da língua (que deve ter uma origem felina, já que sobrevive garbosamente, com suas sete vidas, a qualquer desses atentados). Mas tudo isso me remete a mais nova “muleta” da língua portuguesa: o uso exagerado e indevido do “você”. Um dia desses, pela manhã, o Prof. Marcelo Portugal (não confundir com o xará, ex-presidente do São Paulo FC, que morreu recentemente), ao ser entrevistado na rádio CBN pelo Heródoto Barbeiro, começou a dissertar, com muita propriedade técnica, sobre a crise financeira mundial, suas origens e suas conseqüências. E aí dá-lhe usar “você” à torto e à direita. “Na crise de 1929, você aumentou os juros, o que apertou a liquidez, quando você deveria ter feito o contrário”, “Você demorou a tomar uma atitude para socorrer o mercado”, “Você, você, você!”. Quem é esse “você” a quem ele se dirigiu reiteradamente? Não era o Heródoto Barbeiro, porque não teria a idade suficiente para ter tomado alguma atitude em 1929 (idéia esta que seria severamente contestada pelo comentarista Juca Kfhouri, já que ambos vivem trocando engraçadas farpas pelas ondas da CBN, sobre a idade “avançada” de um e de outro). Nem o pobre ouvinte, obrigado a ouvir essa forma estranha de comunicação. Esse ”você”, largamente utilizado nos comentários do professor, referia-se ao governo dos Estados Unidos, às pessoas que ocupavam cargos de decisão na esfera econômica. Então porque não dizer em alto e bom som a quem efetivamente o professor estava se referindo? É uma questão de economia, neste caso de palavras e de tempo de conversação? O que acontece é que isso não é uma ocorrência isolada. Isso é a ponta do iceberg: encontra-se essa forma de expressão em qualquer meio de comunicação, mas naturalmente na sua forma menos formal. Ninguém, em sã consciência, vai escrever e falar um texto formal usando essa característica curiosa e indevida. João Ubaldo Ribeiro, uma das maiores expressões da língua portuguesa (já disse isso em uma crônica anterior, mas nunca é demais falar: agraciado com o Prêmio Camões de 2008), chamou a nossa atenção há pouco tempo atrás, em sua crônica dominical no Estadão, para essa mania que já contaminou uma enormidade de pessoas, desde o falador Presidente da República (que deve ser aquele tipo de pessoa que discursa até quando abre a geladeira, atiçado pela luz que bate em seu rosto), até as pessoas de ocupações mais humildes. E confesso: eu já me peguei diversas vezes falando dessa maneira. Acreditem: é um vício difícil de exterminar. Como se trata de uma simplificação, evitar representa um esforço considerável. É preciso pensar antecipadamente no que se está falando, antes de perpetrar essa bobagem, e isso não é fácil. Em vez de dar os nomes aos bois, citando o sujeito efetivo das nossas frases, optamos pela simplificação que é usar indevidamente o “você”. Não sei se isso é apenas uma moda passageira, como muitas outras que impregnaram nossa maltratada língua em outros tempos. Ou se veio para ficar, afinal não podemos esquecer que a língua é dinâmica, sujeita a infinitas influências, mudando e evoluindo (ou involuindo, como neste caso, já que é seguramente uma situação empobrecedora), ao sabor das várias intervenções e interferências. Por isso a língua é considerada como uma entidade viva. Vá se saber até onde essa onda vai! Já estou vendo a hora em que um religioso vai fazer a sua pregação da seguinte forma: “Você criou o céu e a terra e no sétimo dia você descansou”. Senhor, tem piedade de nós! Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-4888397211662433872?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/4888397211662433872/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2008/12/artigo-indefinido-ano-1-n-12.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4888397211662433872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/4888397211662433872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2008/12/artigo-indefinido-ano-1-n-12.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 12'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2405135110941486900.post-7321230306420819452</id><published>2008-12-18T11:38:00.000-08:00</published><updated>2008-12-18T11:39:33.198-08:00</updated><title type='text'>Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 11</title><content type='html'>A igreja Assembléia de Deus, da Avenida Ricardo Jafet, no Ipiranga, tem uma aparência mais próxima das catedrais, com a imponência característica: o estilo mais rebuscado, as torres, as janelas com vitrais coloridos e outras características desse gênero de construção. E nisso ela é diferente das inúmeras outras igrejas de mesmo nome que encontramos pelos bairros, em geral mais sóbrias, (muito) menos vistosas, mais pragmáticas, se é que pode dizer isso da aparência de uma igreja. E sobre a parte mais alta dessa igreja da Ricardo Jafet há um grande relógio branco, que se ilumina à noite - parecendo uma lua cheia meio deslocada - girando lentamente, mostrando as horas em uma face e o nome da igreja na outra. Quem passa diariamente por aquele trecho da avenida, como eu, já se acostumou a enxergar o relógio girando sobre a parte mais alta da igreja. Faz parte do dia a dia. A rotina, por sua vez, algo que pode nos trazer tédio e desânimo pela repetição insossa, também tem, por outro lado, o dom de trazer conforto e segurança. Afinal, basta termos alterações inesperadas nas nossas atividades corriqueiras, e lá estamos nós desamparados, desconfortáveis, inseguros (o jornal que não foi entregue na portaria do prédio, o sinal da TV a cabo que sumiu sem maiores explicações, o remédio para dor de cabeça que usamos com freqüência que, de repente, some das farmácias, etc.). Por isso, foi com espanto que vi, alguns dias atrás, o relógio daquela igreja parado, tanto no movimento dos ponteiros, quanto no seu giro habitual. Junto com a sensação de desconforto, que vem quando algo quebra a nossa rotina, sem que para isso tenhamos contribuído, ou que estivéssemos conscientemente aguardando, chegou a (vaga) noção de que um sinal havia aparecido. Um sinal de crise (!?), de paralisação de atividade, de congelamento, de perda de sentido? Seres humanos inseguros que somos, estamos (pelo menos a maioria de nós) eternamente em busca de sinais que nos guiem e que nos orientem (lembram-se da canção do Gilberto Gil? “Se oriente, rapaz!”, querendo dizer não só que o rapaz deve buscar orientação, como também deve buscar o “oriente”, voltar-se para o “oriente”, como contrapartida ao nosso “ocidente”). Por isso vivemos tentando interpretar os sinais, de maneira a entender o que acontece nas nossas vidas cotidianas. O táxi atrasou no trânsito de São Paulo e por isso perdemos um vôo? Isso deve ser um sinal! A Ana Maria Braga desejou o sumiço do ex-marido da atriz Suzana Vieira? Com certeza foi um sinal, e dos mais fatídicos. Por isso jogamos búzios, lemos cartas do tarô, recorremos ao I Ching, adotamos o Feng Shui. Os religiosos, por sua vez, buscam esses sinais na igreja, no contato com o plano divino, para tentar receber não só explicações para o que já aconteceu, como também para o que ainda vai acontecer. Às vezes desvirtuamos essa questão dos sinais, e passamos nós mesmos a tomar atitudes que sinalizem segurança e conforto. Só entrar em casa com o pé direito, sair dos lugares pela mesma porta por onde entrou, bater na madeira para evitar maus presságios, e por aí vai. Em pouco tempo, se não tomarmos os devidos cuidados, isso evolui para o famigerado TOC (transtorno obsessivo compulsivo), e o que era para proporcionar segurança e conforto passa a representar um entrave, atrapalhando nossa vida cotidiana. Não há como não lembrar do personagem vivido pelo ator Jack Nicholson no filme “Melhor Impossível”, cheio de tiques e manias (atuação que rendeu-lhe o Oscar de melhor ator de 1997). Ou, para sermos mais próximos, do cantor Roberto Carlos, que martirizava a si mesmo e aos que o cercavam com as inúmeras manias. Fazendo um rápido exame de consciência: quem de nós pode atirar a primeira pedra, e dizer convicto que não se submete a algum tipo de mania estranha? Mas vamos voltar à igreja do Ipiranga: o que aquele relógio parado pode representar para os incautos observadores? O que será que houve com o relógio? Será que estão fazendo manutenção? Ou será que a igreja, espremida no seu terreno, decidiu retirar aquele símbolo das nossas vistas para sempre? Usando um clichê antigo (o que também não deixa de ser uma mania reprovável): só o tempo dirá. Nos falamos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2405135110941486900-7321230306420819452?l=adalbertonogueira.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/feeds/7321230306420819452/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2008/12/artigo-indefinido-ano-1-n-11.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7321230306420819452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2405135110941486900/posts/default/7321230306420819452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://adalbertonogueira.blogspot.com/2008/12/artigo-indefinido-ano-1-n-11.html' title='Artigo Indefinido – Ano 1 – Nº 11'/><author><name>Adalberto Nogueira</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01110024921928250066</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_n1ilYniZWDo/S7zpKSwkF2I/AAAAAAAAAA4/1LqC7axwWPY/S220/Eu+21jan2009.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
